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sábado, 25 de janeiro de 2014

Resenha 18: "Ela", de Spike Jonze

Joaquin Phoenix em Ela. © Warner Bros.
Her, EUA, 2013. Romance/Sci-fi/Dramédia. 126 minutos. Direção: Spike Jonze. Escrito por: Spike Jonze. Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher, Laura Kai Chen, Portia Doubleday, Scarlett Johansson. Classificação indicativa: A definir. R nos EUA.

Nota: eu originalmente não ia escrever resenhas individuais para nenhum dos filmes indicados ao Oscar — eles seriam cobertos em um especial futuro que utilizaria a premiação como forma de relembrar o ano que se passou — mas vou fazer uma exceção aqui. O especial ainda será redigido, em breve.

A certa altura de Ela, Spike Jonze roda uma cena de sexo particularmente climática. Trata-se da "consumação" do relacionamento cuidadosamente construído entre os protagonistas Theodore e Samantha, e é sem dúvida uma das cenas mais marcantes de um filme repleto destas, tanto pelo intimismo destemido com que a sequência se desenrola quanto pelo diálogo antológico que os dois personagens compartilham e que coloca em evidência o significado daquele momento para ambos. É incomum para quaisquer filmes representar o ato sexual de forma tão simultaneamente natural e poética, mas Jonze, juntamente com Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, mostra-se à altura da tarefa, o que resulta em alguns minutos infinitamente mais envolventes e impactantes do que uma infinidade de cenas que lançam mão da nudez e do sexo crus e óbvios tencionando impressionar pelo caminho mais fácil. Eis, porém, o detalhe que diferencia esta de outras boas cenas de sexo: imediatamente antes de a ação tornar-se explícita, Jonze insere um fade out que centraliza a força da cena apenas no som, e limita todo o seu conteúdo visual à imaginação do público. Nada mais apropriado, considerando que Samantha é um sistema operacional com presença física nula.

Tal é o mote do roteiro, que se passa num futuro impreciso mas próximo: em meio aos edifícios pós-modernos de uma Los Angeles apenas um tantinho futurista, o solitário Theodore Twombly passa seus dias escrevendo cartas profundamente emotivas por encomenda, ouvindo as atualizações de um robótico assistente pessoal, jogando videogame, relembrando momentos de seu casamento recém-desmoronado e vagando por aí enfiado em calças de cintura alta que parecem ser a moda vigente. Sua vida só começa a se desvencilhar da sombra do amor de infância azedado — as razões desse azedamento chegam até nós de pouco em pouco, em flashbacks de lirismo excepcional — quando ele decide comprar o OS1, anunciado como o primeiro sistema operacional com inteligência artificial. E, por maior que seja a tentação de descrever a invenção como uma Siri do futuro, essa seria uma comparação infundada, pois fica claro desde as primeiras palavras trocadas entre Theodore e seu OS, autobatizado Samantha, que esta última é uma criatura bem mais interessante do que um simples assistente.

A diferença é registrada brilhantemente assim que Samantha solta seu primeiro "Oi", em que a voz de Johansson exibe uma pequena falha tonal tipicamente humana, e continua sendo desenvolvida conforme ela e Theodore se tornam mais próximos: entre updates simpáticos e perguntas algo intromissoras, Samantha, em aprendizado empírico constante, prova ser capaz de discorrer com personalidade sobre questões filosóficas e emocionais — as quais vêm em peso, dada a situação aflitiva de Theodore e seu embate psicológico com os documentos de divórcio —, e até mesmo de fazer rir com piadas inesperadas. Fragilizado e precisando de um amigo como está — sua colega mais próxima, Aimee, vive distraída pelo trabalho e pelo marido —, Theodore deixa-se tornar amigo de Samantha, e mais tarde algo mais que isso, culminando na referida cena de sexo, a qual, esclarecendo, ocorre antes da metade da projeção. Montado o palco, o filme se lança em uma exploração sagaz, mas sempre delicada, de seu conceito maluco, apoiada no relacionamento central mas aberta a incursões de personagens secundários — e ver as diferentes reações à notícia de que Theodore está namorando uma OS constitui uma experiência emocionalmente e intelectualmente estimulante.

O mesmo pode ser dito de todo o filme, na verdade. Ciente do potencial temático da ideia, Jonze, em seu primeiro roteiro 100% original (seus trabalhos anteriores haviam partido de roteiros de Charlie Kaufman ou do livro Onde Vivem os Monstros), não falha em abrir a trama em discussões profundas e multifacetadas sobre o que se subentende naquele amor sci-fi, o que ele nos diz sobre os caminhos dessa sociedade cada vez mais tech (algo que é potencializado significativamente pela hábil idealização que Jonze e seus designers fazem do futuro não-tão-distante) — pra não falar das questões metafísicas e existenciais inerentes ao relacionamento central e ao crescimento de Samantha como personagem, as quais chegam a ter papel fundamental no conflito principal. O grande mérito de Jonze, no entanto, está em não transformar sua história numa fábula preta-e-branca, e sim se dar ao trabalho de envolver emocionalmente o espectador. Assim, mais do que enxergar Samantha como uma metáfora para isso ou aquilo, somos levados a vê-la pelo que ela é de fato: um ser complexo, único, falho e dotado de sentimentos, que merece tanta consideração quanto qualquer ser humano com um corpo. É por essas e outras que, antes de ser qualquer outra coisa (e é muitas), Ela é uma história de amor, ao mesmo tempo absurdamente tocante e aplaudivelmente inteligente ao retratar os percalços de um romance repleto destes por natureza — e, ao enfocá-lo, Jonze consegue ainda se debruçar sobre perguntas difíceis acerca da natureza do amor romântico. Falamos, afinal, de um relacionamento não-convencional se alguma vez já houve um.

Isso tudo já seria suficiente para colocar qualquer produção entre as melhores do ano. Mas eis aqui o que torna Ela um grande filme: em vez de se distanciar do enredo e conduzi-lo sobriamente como em suas colaborações com Kaufman, Jonze permite a si mesmo imbuir sua obra de poesia. Na fotografia saturada e quente, nos monólogos confessionais, nos parênteses sábios, nos acordes suntuosos e sensíveis da trilha do Arcade Fire, nas ocorrências pontuais de ironia e humor, Ela voa alto, capaz como nenhum outro filme dessa década até agora de fazer um registro maravilhosamente humano de um zeitgeist peculiar. Essa doce intoxicação sensorial e mental é, inclusive, um passo importante para Jonze, que estabelece uma marca pessoal praticamente única em Hollywood graças a seu tato para a beleza crua das coisas. O elenco, é claro, contribui fabulosamente para essa aura de ukulele audiovisual: privada de maquiagem, Amy Adams entrega uma Aimee frágil e compreensível que faz um excelente contraponto humano a Theodore, enquanto Rooney Mara é hábil na composição de uma ex-mulher geniosa e complicada, alternando entre o contexto etéreo das memórias do protagonista e a dureza do pós-término com proficiência. Fechando o elenco secundário, Chris Pratt demonstra mais uma vez ter um grande talento para alívio cômico, revelando-se ainda competente nos momentos mais graves da participação de seu personagem.

Isso tudo, lógico, pra não falar do casal de protagonistas. Se o desafio ao qual se submete Johansson é grande o suficiente, munida apenas de sua voz para transmitir uma infinidade de ideias, pensamentos e estados de espírito, o de Phoenix é ainda maior: carregando todas as cenas, com a câmera a centímetros do rosto em boa parte delas, ele dá conta não só de construir um homem comovente em suas múltiplas neuroses e dúvidas, como de estabelecer uma química sublime com uma voz praticamente imaterial. Muito graças aos dois atores, Theodore e Samantha se mostram personagens memoráveis, nos quais o espectador pode ancorar-se com gosto conforme navega pelo admirável mundo novo imaginado por Jonze. O futuro de Jonze, diga-se de passagem, é palpável, rico em sua enganosa simplicidade, assustador em alguns lugares e encantador em outros, habitado por homens e mulheres invariavelmente interessantes em suas opiniões variadas sobre questões pertinentes àquele tempo e, em termos, ao nosso; poucas vezes na memória recente um cineasta foi tão habilidoso em imergir seu público em uma realidade fictícia — muito porque o mundo alguns anos mais velho que ele constrói não é tão fictício assim. Isso, aliás, é parte do que torna a ficção científica naturalista aqui observada tão instigante: Jonze acerta em cheio todas as suas observações discretas sobre os rumos que estamos tomando, imaginando desde games simuladores de maternidade até uma espécie de Chatroulette oral para tarados(as) sem sono, em passagens que inspiram divertimento e temor, frequentemente ao mesmo tempo. Trata-se do trabalho de um verdadeiro visionário, sem a menor sombra de dúvida — só mesmo um visionário, afinal de contas, para nos fazer acompanhar com o coração na mão a história do amor entre um escritor solitário e um sistema operacional.


Classificação final:

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Resenha 17: "Jogos Vorazes: Em Chamas", de Francis Lawrence

Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson em Jogos Vorazes: Em Chamas. © Lionsgate.
The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013. Sci-fi/Drama/Aventura. 146 minutos. Direção: Francis Lawrence. Escrito por: Simon Beaufoy e Michael deBruyn. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Stanley Tucci, Philip Seymour Hoffman, Sam Claflin, Jena Malone, Lynn Cohen, Jeffrey Wright, Amanda Plummer, Willow Shields, Paula Malcomson, Donald Sutherland. Classificação indicativa: 14 anos.

Eu gostei bastante do primeiro Jogos Vorazes: embora fosse um filme falho em mais de um aspecto, era uma bem-vinda lufada de maturidade numa indústria que costuma privilegiar o entretenimento fácil até mesmo nos blockbusters "para adultos", que dirá nas aventuras juvenis. Tratava-se, porém, de um ano particularmente bom para filmes populares, e portanto Jogos Vorazes, com sua execução meio atrapalhada e sua lógica interna translúcida, acabou não se destacando tanto em meio a outros arrasa-quarteirões "sérios" como 007: Operação Skyfall e Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Tanto maior, então, é a conquista deste Jogos Vorazes: Em Chamas, que, no que tem sido um 2013 bastante frustrante, consegue retomar os temas complexos de seu antecessor e empacotá-los numa história mais fluida, mais eficaz e bem mais incendiária, saindo-se no processo como o melhor filme de franquia do ano até agora.

Parte desse sucesso se deve, sem dúvida, à troca de timoneiro: com a saída do experiente Gary Ross, a cadeira do diretor foi ocupada pelo até então pouco conhecido Francis Lawrence, que tomou a decisão correta de deixar de lado as pretensões artescas de Ross e optar por uma condução redonda e precisa. Correta porque, carregada como é de metáforas e subtexto, a trama fala por si mesma — sem necessidade, por exemplo, de uma câmera trêmula para transmitir a sensação de insegurança dos personagens. Dessa forma, quando vemos novamente Katniss Everdeen percorrer a cinzenta sordidez de seu Distrito 12 no início da projeção, a impressão que fica é a de um universo muito mais sólido, mais palpável, e consequentemente mais aterrador em sua brutalidade. Tal imersão se torna ainda mais essencial para o impacto emocional do filme conforme os eventos do primeiro ato se desenrolam, quando descobrimos que o quase-suicídio de Katniss e seu colega de competição Peeta Mellark, que determinou sua excepcional vitória dupla nos titulares Jogos Vorazes ao final do primeiro filme, tem sido visto por alguns dos cidadãos oprimidos da Panem como um ato de rebeldia, e uma prova de que a ideia de se levantar contra aquele sistema fascista não é assim tão absurda.

Tida como responsável por esse clima tenso, Katniss, que no fim das contas só quer garantir a sobrevivência da sua família e amigos, recebe um ultimato do sinistro Presidente Snow: ao longo dos 12 dias da iminente Turnê da Vitória, ela e seu falso namorado Peeta devem convencer a nação de que sua firula nos Jogos não passou de um ato de amor desesperado, nada que tivesse o intuito de motivar rebeliões; caso contrário, todos que ama irão pagar o pato. A heroína consente, mas não cumpre o que prometeu: forçada a encarar a realidade severa dos demais Distritos do país, ela ora fala mais do que devia e atiça multidões, ora não convence com seu teatro artificial de amor e cortesia. Nem mesmo o pedido de casamento feito por Peeta, um fantoche bem mais carismático que ela, acalma os espíritos rebeldes. Ao voltar da viagem, Katniss não vê outra opção senão levar os seus lá para dentro da floresta e torcer para não ser encontrada mais. Antes, porém, que ela possa convencer o amigo de infância Gale a deixar o motim para os outros e ir com ela, o Presidente dá um jeito de arrastá-la para mais uma edição dos Jogos — por ocasião do Massacre Quartenário, uma edição especial que ocorre a cada 25 anos. A regra nova da vez é que os Tributos serão escolhidos a partir do grupo já existente de vencedores.

O filme não tem pressa alguma em chegar nesse ponto da narrativa, permitindo que as tangentes lógicas da situação dos personagens se desenvolvam de maneira sempre impactante: se o arco central pertence indubitavelmente a Katniss, imobilizada pelo seu instinto de sobrevivência embora saiba o quão revoltante é o status quo, a trama não se furta em abarcar uma série de outros conflitos, da angústia silenciosa de Peeta frente ao fato de seu relacionamento com a protagonista ser puro fingimento à fragilidade das colunas midiáticas nas quais se sustenta o sistema de domínio da Capital — de modo que quando a reedição dos Jogos finalmente se torna assunto principal do enredo, há muito mais em jogo para todos os envolvidos do que a sobrevivência imediata, proporcionando ao espectador uma imersão profunda no universo inquieto da história. Com isso, o filme consegue evitar o que poderia ter sido uma reprise do original, introduzindo, de quebra, uma série de Tributos mais interessantes e memoráveis na forma dos vencedores das competições anteriores, em sua maioria adultos já formados ou até mesmo idosos, todos profundamente insatisfeitos com sua condição de reentrantes.

É então que Em Chamas verdadeiramente pega fogo: entre tributos insurretos e levantes populares, o filme, construído desde os primeiros minutos como uma arrojada bomba-relógio, assume de vez um espírito revolucionário que não é mais largado até o último instante da projeção. Com o aumento orçamentário robusto, Lawrence permite-se idealizar uma cenografia bem mais vistosa e sequências de ação mais empolgantes, sem nunca deixar de empregar a riqueza visual e técnica do filme em favor da história. A praticamente todos os personagens, novos ou velhos, é dada a oportunidade de crescer e aparecer, permitindo que todos os componentes do elenco fabuloso mostrem a que vieram. Calouros como Sam Claflin e Jena Malone são instantaneamente magnéticos, e nomes de peso como Elizabeth Banks e Stanley Tucci revelam-se capazes de levar seus personagens além da caricatura a que antes eram limitados; Philip Seymour Hoffman se sai impecável como de costume no papel do ambíguo idealizador do evento, emprestando, junto a veteranos como Jeffrey Wright e Amanda Plummer, uma gravitas de valor incalculável ao todo. Os já antes elogiáveis Woody Harrelson e Josh Hutcherson entregam performances ainda mais realizadas — no caso de Hutcherson, a composição é especialmente fascinante por evidenciar o crescimento deste como ator desde que despontou. Até mesmo Liam Hemsworth faz o que pode, saindo-se razoavelmente bem apesar de ser, sem dúvida, o mais limitado ator em cena. Todo esse esforço conjunto contribui para que este seja o filme a estabelecer Panem como um mundo tridimensional e inebriante, tornando ainda mais contundentes as reflexões que o longa propõe.

Aí, por sinal, encontra-se a força principal não só de Em Chamas, mas também, ao que parece, de toda esta surpreendente cinessérie: aqui, jamais o que se vê na tela é liso; toda interação, em grande ou pequena escala, dá margem para diversas interpretações em torno dos temas onipresentes de opressão sistemática, alienação, sadismo cultural e desigualdade. O que não significa que o filme não tenha foco — neste segundo capítulo, a jornada pessoal de Katniss, sempre à vista por mais intricado que seja seu entorno, traz à tona duas questões centrais — os deveres pessoais nas revoluções e o papel da mídia e da cultura popular nas relações de poder — que Lawrence, juntamente com os roteiristas Simon Beaufoy e Michael Arndt (ambos vencedores do Oscar), dá conta de explorar para efeito máximo, traçando muitos paralelos oportunos com a sociedade humana contemporânea. O resultado é que o embate entre Katniss e o Presidente Snow, traduzido perfeitamente nas atuações arrebatadoras de Jennifer Lawrence e Donald Sutherland, vai muito além de um conflito "mocinha vs. vilão", e acaba por ser um dos confrontos mais instigantes do cinema popular recente. Em Chamas, é, portanto, uma "aventura para jovens" que supera qualquer estigma, o que fica especialmente claro ao analisarmos, por exemplo, o relativamente desinteressante triângulo amoroso central, em que todos os componentes têm conflitos e motivações que extrapolam suas buscas românticas. Sim, é uma produção de inegáveis pretensões monetárias — mas, num meio em que a Saga Crepúsculo é considerada um modelo de sucesso, já é bem mais do que estamos acostumados a antecipar. Que venha logo A Esperança.


Classificação final:

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Resenhas back-to-back: 15/16

Eu assisti a mais ou menos nove filmes nos últimos 6 dias, e pretendo escrever sobre todos eles. Essa situação exige medidas drásticas, e o que eu decidi fazer foi inaugurar um novo bloco batizado de "Resenhas back-to-back", em que escreverei sobre dois filmes com uma cajadada só em textos mais curtos que o normal.

Os escolhidos de hoje não foram assistidos em sequência (o filme que escrevi entre os dois será discutido isoladamente em outra inauguração de bloco mais tarde), mas são aqueles que inspiraram os textos mais curtos. Uma já saiu de cartaz faz tempo e a outra acabou de entrar, porém eu exorto-vos a desconsiderar a diferença de tempo.

De Pernas pro Ar 2, de Roberto Santucci

Brasil, 2012. Comédia/Romance. 98 min. Direção: Roberto Santucci. Escrito por: Mariza Leão, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães e Marcelo Saback. Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Maria Paula, Eriberto Leão, Denise Weinberg, Cristina Pereira, Christine Fernandes, Tatá Werneck, Luis Miranda. Classificação indicativa: 14 anos.

Me ocorreu há algum tempo que eu nunca escrevi nada sobre um filme nacional nesse blog, provavelmente porque eu raramente assisto a produções brasileiras (não há um motivo específico para isso, antes que você pergunte). Por circunstância, acabei indo ver essa semana a continuação justamente daquele que, se bem me lembro, foi o último nacional que assisti. E, se De Pernas pro Ar chegava a ser embaraçoso em sua ineptidão, De Pernas pro Ar 2 acabou se revelando uma grata surpresa. Não tão bom a ponto de redimir o primeiro, mas aí já é pedir demais. Pra começar, o orçamento do filme teve um bem-vindo upgrade, eliminando os erros grosseiros de produção que tornavam o primeiro impossível de levar a sério. Em segundo lugar, os realizadores perceberam que enquadrar mulheres conversando sobre vibradores não é suficiente para dar interesse feminino a um flime, e investiram em uma trama que pode agradar tanto a, erm, "mulheres modernas" quanto ao resto do público em geral. E, se é inegável a confusão provocada por ambientar metade da ação em um spa isolado cheio de "figuras" e a outra metade em plena Nova York (o primeiro ato parece até existir apenas para que a projeção alcance 90 minutos), pelo menos o filme é tonalmente sólido.

Ainda assim, a saga de Alice tentando inicialmente relaxar em um spa para depois ir abrir uma filial da Sexy Delícia na Big Apple sofre de muitos problemas herdados de seu antecessor: o furor em torno da rede de sex shops operada pela protagonista continua não convencendo, e a tentativa de imitar comédias americanas se mantém ruidosa, inclusive nos momentos sentimentais envolvendo Alice e seu filho. E os roteiristas ainda acharam uma boa ideia rechear o filme de momentos-anedota — a saber, cenas em que os personagens comportam-se irrealisticamente pelo bem do remate imediato da piada. Mas essa falta de visão de jogo meio onipresente é compensada por uma boa quantidade de sacadas inteligentes, como a aparição pontual, em dois momentos distintos, de uma gravação de Alice quando criança, a qual se mostra reveladora sobre a personagem e sua família. Além disso, é dado mais material à divertida empregada Rosa, e a sua personalidade humilde, se ocasionalmente provocadora de piadas forçadas ("Do you wanna fuck?"), acaba sendo um contraponto saudável à descarada propaganda turística de Nova York que o resto do filme faz — algo que fica acentuado na hilária montagem musical que intercala a fogosa Marcela saindo de lojas de grife com sacolas cheias a Rosa maravilhando-se ao vasculhar as prateleiras de um supermercado.

Mas a melhor coisa a respeito desse De Pernas pro Ar 2 reside no quanto os realizadores parecem conhecer seu público, presenteando-o com referências sutis e detalhes que ajudam a criar um universo cômico interno — repare, por exemplo, no uso econômico do bizarro funk que se tornou música-tema do primeiro filme, ou no esforço em criar uma mitologia em torno do coelho de pelúcia. Também é notável a participação de Rodrigo Sant'Anna, em que os realizadores resistem à tentação de incluir uma referência óbvia a Valéria Vasques e optam por uma alusão sutil no finzinho da participação do comediante. Mas é claro que nada dessa auto-consciência seria suficiente para redimir a historinha medíocre não fosse o elenco, e a boa notícia é que os atores se mostram bem mais afinados do que no primeiro filme — se Ingrid Guimarães precisava carregar o primeiro nas costas e não conseguia, nessa continuação todos os seus colegas de elenco contribuem para o produto final, inclusive a antes risível Maria Paula, que, surpreendentemente, consegue convencer a maior parte do tempo na pele de Marcela. Avaliando De Pernas pro Ar 2 friamente, o filme não merece mais elogios do que uma romcom americana média, mas graças à sintonia dos atores esse conhecimento é disfarçado com sucesso. E já é ótimo que o enfraquecido gênero da comédia nacional esteja chegando a tanto.

Classificação final:

Homens de Preto 3, de Barry Sonnenfeld

Men in Black 3, EUA, 2012. Ação/Comédia/Sci-fi. 106 min. Direção: Barry Sonnenfeld. Escrito por: Etan Cohen. Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Jemaine Clement, Emma Thompson, Michael Stuhlbarg, Mike Colter, Bill Hader, David Rasche, Alice Eve. Classificação indicativa: 10 anos.

Se você, como eu, não está familiarizado com o universo dos filmes de Barry Sonnenfeld, Homens de Preto 3 pode ser uma boa introdução, já que, desde as cenas iniciais, o roteirista Etan Cohen faz o possível para que nenhum conceito pertinente ao universo maluco dos MIB fique confuso na mente dos não-iniciados. Com o jeitão de um filme-pipoca descompromissado, esse é um daqueles filmes que chegam perto de duas horas e parecem durar 30 minutos, tamanho o seu empenho em entreter uniformemente. E, de quebra, algumas passagens pisam fora da zona de conforto e tornam o filme mais sensível e intelectualmente inspirado que a maioria dos blockbusters. Tomando como ponto de partida dramático a indignação do Agente J com o jeito taciturno e ranzinza de Tommy Lee... err, Agente K, o roteiro começa cedo a se dedicar, ainda que em segundo plano, a explorar a relação entre os dois. Assim, não poderia ser mais conveniente o enredo de viagem no tempo, em que J precisa voltar ao ano de 1969 para impedir que Boris, o Animal mate K e provoque, 40 anos depois, um massivo e incombatível ataque dos Bogloditas à Terra. (LSD much?)

Isso porque, no passado, J conhece a versão menos-de-30 de K, e a interação entre os dois é inspirada, tanto graças ao roteiro quanto à performance de Josh Brolin (detalhes logo mais). Também é divertido ver o quartel-general dos MIB coberto de apetrechos sessentistas — uma prova do senso de humor da produção e dos diretores de arte, e que condiz perfeitamente com a veia cômica quase surrealista estabelecida pelo filme, e que, imagino, sempre foi uma das marcas registradas da série de Sonnenfeld. O segundo ato inteiro é uma brincadeira com o período, na verdade, com piadas que vão de Andy Warhol ao racismo da polícia. Mas, sight gags à parte, nós ainda estamos falando de viagens no tempo, e é irrepreensível a forma como o filme lida com o conceito, incitando dor de cabeça mais de uma vez sem abrir buracos na lógica e aproveitando a deixa para incluir observações sobre linhas do tempo alternativas através do memorável personagem de Michael Stuhlbarg, o arcaniano Griffin. Melhor que a encomenda para o filme 3 de uma cinessérie de sessão da tarde.

Não que Homens de Preto 3 seja perfeito, ou sequer perto disso: o diretor muitas vezes falha em estabelecer equilíbrio entre os momentos propositalmente asquerosos e os diálogos de fogo rápido, e tirando uma ou outra piada visual mais inspirada (como aquela logo no começo que envolve Lady Gaga e dura uns dois segundos), o filme não é lá muito inventivo visualmente. Mas o que se poderia esperar de um filme desses está lá, e em profusão: a maquiagem protética é impressionante, o ritmo é perfeito para um filme com o propósito de entreter, e o notável elenco se compromete ao máximo. O que me leva, claro, a Josh Brolin. Se é possível argumentar que Tommy Lee Jones faz o papel dele mesmo, então Brolin praticamente interpreta Jones — e não poderia ser mais bem-sucedido na tarefa, simulando a cadência da voz do ator e seus maneirismos sutis com perfeição absoluta, e chegando por vezes a nos fazer esquecer que é ele e não Jones que aparece na tela. Mas sua atuação não se restringe à imitação, acrescentando também uma inédita camada de leveza e otimismo ao agente K que enriquece a já delicada (e por vezes tocante) análise que o filme faz da relação entre ele e J. Logo, quando Jones volta a surgir na tela no desfecho, passamos, assim como J, a ver seu personagem com outros olhos, o que, no caso, é um feito e tanto. E, como a aparição final de Griffin confirma, Homens de Preto 3 acaba demonstrando ter conhecimento mais que suficiente da própria proposta, e compondo um argumento convincente para a continuação da franquia.

Classificação final:

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Resenha 14: "Frankenweenie", de Tim Burton

Sparky (Frank Welker) em Frankenweenie. © Disney.
Frankenweenie, EUA, 2012. Animação/Família/Sci-fi/Dramédia. 87 minutos. Direção: Tim Burton. Escrito por: John August. Elenco: Charlie Tahan, Catherine O'Hara, Martin Short, Winona Ryder, Martin Landau, Atticus Shaffer, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell, Tom Kenny. Classificação indicativa: Livre.

Tim Burton é um perfeccionista. É sabido que poucos diretores hoje se entregam tanto ao seu ofício e com tanto preciosismo na construção das histórias, dos personagens e dos sets. Como resultado, seus projetos, bicos de produtor à parte, demoram muito tempo para chegar às telas, e são comuns intervalos de dois anos ou mais entre seus filmes. E se estes nem sempre são obras-primas, ainda há que se admitir que esse diretor amado por tantos e desprezado por tantos outros ainda é, no mínimo, um apaixonado pelo que faz. Assim, seria de se esperar que uma obra como Frankenweenie, possivelmente o projeto mais íntimo e pessoal de Burton, se traduzisse em algo inesquecível, nem que apenas pela fascinação de ter um vislumbre da experiência do cineasta. Ao invés disso, pasme, essa terceira animação em stop-motion do ano se revela a mais decepcionantemente medíocre, tanto visual como narrativamente.

Por onde começar? O mote de Frankenweenie é interessante, sugerindo a possibilidade de enfocar as discussões complexas do Frankenstein de Mary Shelley e do filme de James Whale do ponto de vista de uma criança. Em vez disso, o filme nunca parece almejar ser mais do que um spoof desajeitado de filmes de terror — isso porque, apesar de clara a intenção de Burton de contar a história de um garoto e seu cachorro, o roteiro se perde em referências óbvias e algumas não tão óbvias a clássicos que já cansaram de ser parodiados, referências que parecem ter sido incluídas na história simplesmente porque os realizadores pensaram "Por que não?". No geral isso seria perdoável, e até condizente com a atmosfera lúgubre do filme, mas Frankenweenie também parece padecer de excesso de confiança, nunca se esforçando em criar uma história convincente ou mesmo plausível para permear a trajetória pessoal dos dois protagonistas e as dezenas de alusões que a acompanham.

Basta dar um mínimo de processamento aos fatos que alavancam o principal conflito da história para perceber a falta de cuidado (ou seria preguiça?) do roteirista John August: tudo bem que a ideia de um garoto ressuscitando o seu cachorro já jogue a maioria dos obstáculos lógicos pela janela, mas nem por isso é ignorável a unidimensionalidade de crianças que parecem estar dispostas a qualquer coisa, por mais perigosa que seja, pelo que uma delas define como "um troféu grande", ou a função ornamental que cumprem pais que lotam um auditório para derrubar um professor porque não são capazes de entender a ciência (reparem a referência cansada a Plutão). E o que dizer da tensão ridícula criada pela insuportável regra tácita de que os pais não podem saber de nada, por mais dedicados e compreensíveis que sejam?

Todos esses empecilhos ao funcionamento narrativo do filme, juntamente com uma moral simplista, clichês distraidores e personagens secundários que servem apenas como enfeite (ao contrário do que geralmente se vê na filmografia de Burton), parecem apontar que o filme se contenta em agradar apenas às crianças menores — e falha até mesmo aí, desperdiçando uma excelente oportunidade de dar uma lição sobre "viver e deixar morrer" e servindo um happy ending que só não é mais açucarado por acontecer rápido. E se Burton dedica-se um bom tempo a construir uma simpática lógica interna, qualquer traço de coerência é atropelado no clímax, que vê diversos bichinhos de estimação serem ressuscitados apenas para se transformar em monstrengos agressivos, anfíbios humanoides semelhantes aos Gremlins e até mesmo répteis gigantes (!) sem maiores explicações (e chega até a ser ofensiva a decisão de fazer o garoto asiático despertar uma criatura semelhante à Gamera).

Mas a pior constatação que se tem ao assistir Frankenweenie diz respeito ao aspecto visual do filme: por mais duro que seja admitir, a idiossincrasia visual dos personagens de Burton está ficando batida. É só comparar esta com as outras animações em stop-motion do ano (a saber, ParaNorman e Piratas Pirados!), e fica impossível ignorar que esta é aquela em que os personagens tem menos expressão, surgindo quase sempre como versões de massinha da Kristen Stewart, e a existência de personagens de design excêntrico como a Garota Esquisita parece ter a função única de nos distrair desse defeito. É pena, considerando a meticulosidade que Burton dá, como sempre, aos cenários e à direção de arte em geral — além do que, a fotografia em preto-e-branco dá indícios iniciais de uma abordagem não-convencional, o que seria mais que bem-vindo no mundo saturado das animações infantis e condiria com produções em stop-motion de anos recentes, e Burton consegue manter a produção em um patamar saudável de peculiaridade durante os 87 minutos de duração.

Parece até que a minha intenção é destruir o filme, mas na verdade Frankenweenie, no geral, não é ruim. Longe disso. Trata-se de um esforço criativo nobre, com um centro emocional eficaz e sincero, que tem em Victor e seu cachorro Sparky duas das melhores criações recentes do diretor. Fãs de filmes de terror vintage serão facilmente encantados pelas inúmeras referências, assim como os próprios fãs da filmografia de Burton, a qual também é recauchutada extensivamente nas set pieces. O grande problema aqui é uma espécie de confiança excessiva por parte dos realizadores, que, se capazes de criar momentos singelos como aquele em que Sparky finalmente encontra paz ao descansar sobre seu túmulo, também não veem problema em abraçar clichês onipresentes como o do interesse romântico canino. Frankenweenie poderia ser muito pior. Mas também poderia ser muito melhor — e, considerando o potencial em questão, isso é o que marca mais.


Classificação final:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Eu acho que devo uma explicação (+ resenhas 5 a 9)

No acidentado princípio, este blog foi mais um ímpeto do que outra coisa. Considerava-o um exercício do meu senso crítico, que poderia ser colocado em prática se algum dia eu viesse a fazer filmes eu mesmo. Mas a vida atrapalhou a iniciativa e eu acabei entrando em um daqueles hiatos.

Hoje, felizmente, a vida parece ter dado um tempo, e como eu não tenho muita coisa melhor pra fazer, pretendo continuar a escrever resenhas para quaisquer filmes que eu assistir. Devido à grande lacuna entre a minha última resenha e o dia de hoje, os textos não mais se referirão a filmes que acabaram de ser lançados em DVD/BluRay ou no cinema, e sim a quaisquer lançamentos de quaisquer épocas (há uma infinidade de filmes dos últimos 14 anos me aguardando na prateleira, e eu pretendo ver pelo menos a maioria). Lançamentos, no geral, serão priorizados, mas não exclusivos.

Dito isso, me sinto na obrigação de redigir opiniões mais ou menos curtas sobre cinco dos seis filmes que eu assisti mais recentemente (o sexto ganhará um texto à parte). Eles são:

In the Loop, de Armando Ianucci (In the Loop, Inglaterra, 2009. Comédia.). Jamais conseguirei entender os critérios das distribuidoras daqui. Apesar de In the Loop ser, por cima, um filme difícil de entender para os brasileiros, é, no fundo, uma das produções inglesas mais universais lançadas nos últimos anos; na verdade, é acima de tudo um filme anti-guerra, sem dúvida um dos melhores já lançados sobre a Guerra do Iraque. E, apesar disso, não chegou sequer a ter um lançamento em DVD no Brasil. A história, que de tão crua e orgânica nem vale a pena ser resumida com muitos detalhes, é a de como uma série de erros e gafes públicas de secretários e generais dos governos dos EUA e da Inglaterra teriam levado ao início do conflito no Oriente Médio. Mas o espectro do filme vai em várias outras direções, chegando por vezes a assumir a dimensão de um atestado sofisticado do relacionamento entre o governo e o povo. Completamente verossímil tanto em seu roteiro (escrito por quatro pessoas a partir de um seriado cômico inglês da autoria do próprio diretor) quanto na abordagem de Ianucci, que consegue manter um ritmo incrivelmente vívido apesar do estilo "pseudo-documentário" que (corretamente) adota, In the Loop ainda tem o apoio de um grande elenco que contribui para torná-lo consistentemente hilário (Peter Capaldi rouba a cena por estar mais estourado, mas o trabalho difícil de atores como Tom Hollander é igualmente meritório e ambos mereciam indicações ao Oscar). É, por vezes, um filme assustador — e não porque escancara os horrores da guerra, mas porque nos dá uma ideia de quem são as autoridades por trás desses horrores.

Uma Vida Melhor, de Chris Weitz (A Better Life, EUA, 2011. Drama.). Lançado apenas em DVD no Brasil, este Uma Vida Melhor chamou alguma atenção no começo do ano pela indicação-surpresa do mexicano Demián Bichir ao Oscar de Melhor Ator (desbancando Leonardo DiCaprio em J. Edgar). Sexto trabalho diretorial de Chris Weitz, cujo currículo é um dos mais diversos que já vi, indo do primeiro American Pie a A Saga Crepúsculo: Lua Nova e passando por Um Grande Garoto e A Bússola de Ouro, esse relato da experiência de um imigrante ilegal e seu filho em Los Angeles é, certamente, um dos filmes mais maduros do cineasta — e, não obstante, uma produção esquecível. Pra falar do elefante na sala — a atuação de Bichir, obviamente —, não é difícil admitir que ele surpreende no papel, acabando por se revelar melhor do que o filme, que, apesar de resvalar em temas relevantes e fazer um retrato realista da vida dos imigrantes, não atinge a complexidade e as nuances que ressoam na performance contida de seu protagonista. A trama, para começar, sempre parece estar a serviço da proposta, o que diminui a força dos personagens e da própria mensagem do filme, além de tornar seu ritmo inconsistente. Os personagens secundários são apresentados de maneira confusa e desleixada, além de muitas vezes serem incapazes de ir além dos estereótipos (o melhor amigo do filho do principal é uma não-presença). E Weitz comete alguns tropeços inexplicáveis que expõem sua relativa inexperiência atrás das câmeras, como incluir um plano final completamente desnecessário dando um rápido vislumbre da vida de um personagem após seu destino. Apesar dessas falhas "técnicas", porém, o texto de Uma Vida Melhor consegue, na maior parte do tempo, ser humano e reverberante em sua exposição da realidade na qual seus personagens vivem — e assim o mérito das cenas mais instigantes (como aquela em que Luis pergunta ao pai "Por que todas essas pessoas pobres têm filhos?") vai quase todo para os roteiristas.

Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, EUA, 2011. Romance/Comédia/Fantasia.). É cada vez mais difícil encontrar filmes que proponham discussões ambiciosas sem recair em abordagens dramáticas ou até mesmo depressivas. A filmografia de Woody Allen tem a qualidade de entrar muitas vezes nessa categoria de filmes "leves, mas profundos", e Meia-Noite em Paris é um exemplo ótimo. Aproveitando a persona amigável do subestimado Owen Wilson como o Woody Allen da vez (no caso, Woody "Gil, o Roteirista" Allen), o filme consegue ser ao mesmo tempo um espelho crítico da sociedade e um tratado contra o cinismo. Allen está em grande forma atrás das câmeras, brincando com as expectativas do espectador sempre que pode e ressaltando através de sua direção arrojada tudo o que não é inteiramente expresso pelo excelente roteiro, pelo qual ele ganhou um Oscar (que não foi receber, em um ato costumeiro que sempre admirei nele). Além da ideia mais "clara" que o filme atesta — a de que viver no passado é besteira —, há ainda uma série de outras agulhadas dissolvidas na história aparentemente doce de um homem pacato e sonhador que tem a oportunidade insólita de visitar a Paris dos anos 20. O elenco ajuda — tanto Michael Sheen quanto Rachel McAdams estão admiravelmente detestáveis, e Corey Stoll rouba a cena em suas curtas aparições — assim como as belas locações e a fotografia aconchegante. E é maravilhoso ver um cineasta experiente como Allen em ação, amarrando as pontas da estrutura complexa do filme de forma absolutamente admirável no desfecho. Uma produção leve e adorável para qualquer idade — embora provavelmente chata para os muito novos —, Meia-Noite em Paris poderia ser visto pelos fãs mais cínicos do diretor como um trabalho trivial em comparação com obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Mas, como o próprio Allen ressalta aqui, nostalgia demais não vale a pena.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004. Romance/Drama/Sci-Fi.). Às vezes, eu me sinto sinceramente envergonhado de ter assistido a tão poucos filmes escritos por Charlie Kaufman. Além deste, que à época fora considerado seu magnum opus, tendo inclusive lhe rendido seu único Oscar, assisti apenas ao relativamente recente Sinédoque, Nova York. Se esses dois filmes valem alguma coisa, acho que dá pra falar que todo o hype em torno do roteirista Kaufman (também "autor" de Quero Ser John Malkovich e Adaptação) é absolutamente justo. Brilho Eterno... já é praticamente um clássico, então eu não tenho muito mais para falar a seu respeito do que o que já foi dito, mas o que eu posso falar é que qualquer um que não viu esse filme ainda (ou tentou ver e dormiu, o que aconteceu com muita gente) está fazendo a si mesmo um desserviço. Esse drama romântico maluco, pioneiro em retratar as alegrias e as decepções do amor moderno com franqueza (algo que muitos romances passariam a fazer também, um dos casos mais famosos sendo o do ótimo (500) Dias com Ela), é uma daquelas epítomes da linguagem cinematográfica que surgem de tempos em tempos para nos mostrar para que (e do que) o cinema é feito. Criando simbolismos e metáforas dignos de David Lynch e com a profundidade temática de um filme de Francis Coppola ao ambientar o filme quase todo na mente do protagonista, Kaufman e o também visionário diretor francês Michel Gondry (cuja mão inventiva sempre se faz sentir apesar do quanto o roteiro de Kaufman se impõe) fizeram uma obra-prima simultaneamente tocante e assombrosa, com uma complexidade estrutural que poucas vezes teve paralelos e um rigor psicológico impressionante na construção de seus personagens, subvertendo convenções a todo momento e jamais deixando algo ficar solto na narrativa sem que haja um propósito temático específico. Além disso tudo, é claro, todos os atores do filme registram aqui atuações que figuram entre as melhores de suas soberbas carreiras (Jim Carrey em particular). Na superfície, Brilho Eterno... é um filme sobre um relacionamento romântico. Mas, na soma de suas partes, é um filme sobre todos os relacionamentos românticos, e os fatores bons, ruins ou péssimos que os cercam.

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (Moonrise Kingdom, EUA, 2012. Dramédia/Romance.). Eu realmente gostaria de dar cinco estrelas a Moonrise Kingdom — mas não posso, porque embora seja praticamente desprovido de falhas, ainda é um filme que só faz sentido conceitual no contexto de sua produção: sem saber que se trata de um marco na evolução humana dos trabalhos do cultuado Wes Anderson, fica difícil levar esse filme a sério como algo mais do que uma ode à inocência e à eventual perda dela. Na verdade, o olhar de Anderson sobre as pessoas e seus erros, durante quase todo o filme, é apenas observacional, privando o conjunto da profundidade analítica de alguns de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, o delicioso senso estético de Anderson e o imenso respeito que este tem por seus personagens se fazem sentir a todo momento em Moonrise Kingdom, que consegue ser ainda mais caloroso, emocional e envolvente do que o excepcional O Fantástico Sr. Raposo (a segunda melhor produção animada no melhor ano da história recente da animação). Pra começar, a escolha dos dois jovens atores estreantes que encabeçam o elenco estrelado é perfeita. Jared Gilman e Kara Hawyard conseguem fazer frente às atuações memoráveis de veteranos como Bruce Willis e Frances McDormand, além de exibirem bem mais química do que a maioria dos casais de comédias românticas — assim tornando a cena da fuga dos dois entre o primeiro e o segundo ato um momento inesquecível por sua organicidade. O filme todo, na verdade, é recheado de bons momentos, inclusive uma série de analogias inteligentes, visuais e sonoras, que servem para definir os complexos personagens e suas motivações e inseguranças. Pontuando com precisão a também antológica sequência da tempestade, a trilha de Alexandre Desplat é ao mesmo tempo aconchegante e climática, e o mesmo pode ser dito do trabalho minucioso dos diretores de arte. No todo, porém, esse é um triunfo de Anderson, que consegue imprimir seu estilo ao filme ao mesmo tempo em que cria uma obra emocionante capaz de tocar a todos.