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sábado, 25 de janeiro de 2014

Resenha 18: "Ela", de Spike Jonze

Joaquin Phoenix em Ela. © Warner Bros.
Her, EUA, 2013. Romance/Sci-fi/Dramédia. 126 minutos. Direção: Spike Jonze. Escrito por: Spike Jonze. Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher, Laura Kai Chen, Portia Doubleday, Scarlett Johansson. Classificação indicativa: A definir. R nos EUA.

Nota: eu originalmente não ia escrever resenhas individuais para nenhum dos filmes indicados ao Oscar — eles seriam cobertos em um especial futuro que utilizaria a premiação como forma de relembrar o ano que se passou — mas vou fazer uma exceção aqui. O especial ainda será redigido, em breve.

A certa altura de Ela, Spike Jonze roda uma cena de sexo particularmente climática. Trata-se da "consumação" do relacionamento cuidadosamente construído entre os protagonistas Theodore e Samantha, e é sem dúvida uma das cenas mais marcantes de um filme repleto destas, tanto pelo intimismo destemido com que a sequência se desenrola quanto pelo diálogo antológico que os dois personagens compartilham e que coloca em evidência o significado daquele momento para ambos. É incomum para quaisquer filmes representar o ato sexual de forma tão simultaneamente natural e poética, mas Jonze, juntamente com Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, mostra-se à altura da tarefa, o que resulta em alguns minutos infinitamente mais envolventes e impactantes do que uma infinidade de cenas que lançam mão da nudez e do sexo crus e óbvios tencionando impressionar pelo caminho mais fácil. Eis, porém, o detalhe que diferencia esta de outras boas cenas de sexo: imediatamente antes de a ação tornar-se explícita, Jonze insere um fade out que centraliza a força da cena apenas no som, e limita todo o seu conteúdo visual à imaginação do público. Nada mais apropriado, considerando que Samantha é um sistema operacional com presença física nula.

Tal é o mote do roteiro, que se passa num futuro impreciso mas próximo: em meio aos edifícios pós-modernos de uma Los Angeles apenas um tantinho futurista, o solitário Theodore Twombly passa seus dias escrevendo cartas profundamente emotivas por encomenda, ouvindo as atualizações de um robótico assistente pessoal, jogando videogame, relembrando momentos de seu casamento recém-desmoronado e vagando por aí enfiado em calças de cintura alta que parecem ser a moda vigente. Sua vida só começa a se desvencilhar da sombra do amor de infância azedado — as razões desse azedamento chegam até nós de pouco em pouco, em flashbacks de lirismo excepcional — quando ele decide comprar o OS1, anunciado como o primeiro sistema operacional com inteligência artificial. E, por maior que seja a tentação de descrever a invenção como uma Siri do futuro, essa seria uma comparação infundada, pois fica claro desde as primeiras palavras trocadas entre Theodore e seu OS, autobatizado Samantha, que esta última é uma criatura bem mais interessante do que um simples assistente.

A diferença é registrada brilhantemente assim que Samantha solta seu primeiro "Oi", em que a voz de Johansson exibe uma pequena falha tonal tipicamente humana, e continua sendo desenvolvida conforme ela e Theodore se tornam mais próximos: entre updates simpáticos e perguntas algo intromissoras, Samantha, em aprendizado empírico constante, prova ser capaz de discorrer com personalidade sobre questões filosóficas e emocionais — as quais vêm em peso, dada a situação aflitiva de Theodore e seu embate psicológico com os documentos de divórcio —, e até mesmo de fazer rir com piadas inesperadas. Fragilizado e precisando de um amigo como está — sua colega mais próxima, Aimee, vive distraída pelo trabalho e pelo marido —, Theodore deixa-se tornar amigo de Samantha, e mais tarde algo mais que isso, culminando na referida cena de sexo, a qual, esclarecendo, ocorre antes da metade da projeção. Montado o palco, o filme se lança em uma exploração sagaz, mas sempre delicada, de seu conceito maluco, apoiada no relacionamento central mas aberta a incursões de personagens secundários — e ver as diferentes reações à notícia de que Theodore está namorando uma OS constitui uma experiência emocionalmente e intelectualmente estimulante.

O mesmo pode ser dito de todo o filme, na verdade. Ciente do potencial temático da ideia, Jonze, em seu primeiro roteiro 100% original (seus trabalhos anteriores haviam partido de roteiros de Charlie Kaufman ou do livro Onde Vivem os Monstros), não falha em abrir a trama em discussões profundas e multifacetadas sobre o que se subentende naquele amor sci-fi, o que ele nos diz sobre os caminhos dessa sociedade cada vez mais tech (algo que é potencializado significativamente pela hábil idealização que Jonze e seus designers fazem do futuro não-tão-distante) — pra não falar das questões metafísicas e existenciais inerentes ao relacionamento central e ao crescimento de Samantha como personagem, as quais chegam a ter papel fundamental no conflito principal. O grande mérito de Jonze, no entanto, está em não transformar sua história numa fábula preta-e-branca, e sim se dar ao trabalho de envolver emocionalmente o espectador. Assim, mais do que enxergar Samantha como uma metáfora para isso ou aquilo, somos levados a vê-la pelo que ela é de fato: um ser complexo, único, falho e dotado de sentimentos, que merece tanta consideração quanto qualquer ser humano com um corpo. É por essas e outras que, antes de ser qualquer outra coisa (e é muitas), Ela é uma história de amor, ao mesmo tempo absurdamente tocante e aplaudivelmente inteligente ao retratar os percalços de um romance repleto destes por natureza — e, ao enfocá-lo, Jonze consegue ainda se debruçar sobre perguntas difíceis acerca da natureza do amor romântico. Falamos, afinal, de um relacionamento não-convencional se alguma vez já houve um.

Isso tudo já seria suficiente para colocar qualquer produção entre as melhores do ano. Mas eis aqui o que torna Ela um grande filme: em vez de se distanciar do enredo e conduzi-lo sobriamente como em suas colaborações com Kaufman, Jonze permite a si mesmo imbuir sua obra de poesia. Na fotografia saturada e quente, nos monólogos confessionais, nos parênteses sábios, nos acordes suntuosos e sensíveis da trilha do Arcade Fire, nas ocorrências pontuais de ironia e humor, Ela voa alto, capaz como nenhum outro filme dessa década até agora de fazer um registro maravilhosamente humano de um zeitgeist peculiar. Essa doce intoxicação sensorial e mental é, inclusive, um passo importante para Jonze, que estabelece uma marca pessoal praticamente única em Hollywood graças a seu tato para a beleza crua das coisas. O elenco, é claro, contribui fabulosamente para essa aura de ukulele audiovisual: privada de maquiagem, Amy Adams entrega uma Aimee frágil e compreensível que faz um excelente contraponto humano a Theodore, enquanto Rooney Mara é hábil na composição de uma ex-mulher geniosa e complicada, alternando entre o contexto etéreo das memórias do protagonista e a dureza do pós-término com proficiência. Fechando o elenco secundário, Chris Pratt demonstra mais uma vez ter um grande talento para alívio cômico, revelando-se ainda competente nos momentos mais graves da participação de seu personagem.

Isso tudo, lógico, pra não falar do casal de protagonistas. Se o desafio ao qual se submete Johansson é grande o suficiente, munida apenas de sua voz para transmitir uma infinidade de ideias, pensamentos e estados de espírito, o de Phoenix é ainda maior: carregando todas as cenas, com a câmera a centímetros do rosto em boa parte delas, ele dá conta não só de construir um homem comovente em suas múltiplas neuroses e dúvidas, como de estabelecer uma química sublime com uma voz praticamente imaterial. Muito graças aos dois atores, Theodore e Samantha se mostram personagens memoráveis, nos quais o espectador pode ancorar-se com gosto conforme navega pelo admirável mundo novo imaginado por Jonze. O futuro de Jonze, diga-se de passagem, é palpável, rico em sua enganosa simplicidade, assustador em alguns lugares e encantador em outros, habitado por homens e mulheres invariavelmente interessantes em suas opiniões variadas sobre questões pertinentes àquele tempo e, em termos, ao nosso; poucas vezes na memória recente um cineasta foi tão habilidoso em imergir seu público em uma realidade fictícia — muito porque o mundo alguns anos mais velho que ele constrói não é tão fictício assim. Isso, aliás, é parte do que torna a ficção científica naturalista aqui observada tão instigante: Jonze acerta em cheio todas as suas observações discretas sobre os rumos que estamos tomando, imaginando desde games simuladores de maternidade até uma espécie de Chatroulette oral para tarados(as) sem sono, em passagens que inspiram divertimento e temor, frequentemente ao mesmo tempo. Trata-se do trabalho de um verdadeiro visionário, sem a menor sombra de dúvida — só mesmo um visionário, afinal de contas, para nos fazer acompanhar com o coração na mão a história do amor entre um escritor solitário e um sistema operacional.


Classificação final:

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Resenhas back-to-back: 15/16

Eu assisti a mais ou menos nove filmes nos últimos 6 dias, e pretendo escrever sobre todos eles. Essa situação exige medidas drásticas, e o que eu decidi fazer foi inaugurar um novo bloco batizado de "Resenhas back-to-back", em que escreverei sobre dois filmes com uma cajadada só em textos mais curtos que o normal.

Os escolhidos de hoje não foram assistidos em sequência (o filme que escrevi entre os dois será discutido isoladamente em outra inauguração de bloco mais tarde), mas são aqueles que inspiraram os textos mais curtos. Uma já saiu de cartaz faz tempo e a outra acabou de entrar, porém eu exorto-vos a desconsiderar a diferença de tempo.

De Pernas pro Ar 2, de Roberto Santucci

Brasil, 2012. Comédia/Romance. 98 min. Direção: Roberto Santucci. Escrito por: Mariza Leão, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães e Marcelo Saback. Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Maria Paula, Eriberto Leão, Denise Weinberg, Cristina Pereira, Christine Fernandes, Tatá Werneck, Luis Miranda. Classificação indicativa: 14 anos.

Me ocorreu há algum tempo que eu nunca escrevi nada sobre um filme nacional nesse blog, provavelmente porque eu raramente assisto a produções brasileiras (não há um motivo específico para isso, antes que você pergunte). Por circunstância, acabei indo ver essa semana a continuação justamente daquele que, se bem me lembro, foi o último nacional que assisti. E, se De Pernas pro Ar chegava a ser embaraçoso em sua ineptidão, De Pernas pro Ar 2 acabou se revelando uma grata surpresa. Não tão bom a ponto de redimir o primeiro, mas aí já é pedir demais. Pra começar, o orçamento do filme teve um bem-vindo upgrade, eliminando os erros grosseiros de produção que tornavam o primeiro impossível de levar a sério. Em segundo lugar, os realizadores perceberam que enquadrar mulheres conversando sobre vibradores não é suficiente para dar interesse feminino a um flime, e investiram em uma trama que pode agradar tanto a, erm, "mulheres modernas" quanto ao resto do público em geral. E, se é inegável a confusão provocada por ambientar metade da ação em um spa isolado cheio de "figuras" e a outra metade em plena Nova York (o primeiro ato parece até existir apenas para que a projeção alcance 90 minutos), pelo menos o filme é tonalmente sólido.

Ainda assim, a saga de Alice tentando inicialmente relaxar em um spa para depois ir abrir uma filial da Sexy Delícia na Big Apple sofre de muitos problemas herdados de seu antecessor: o furor em torno da rede de sex shops operada pela protagonista continua não convencendo, e a tentativa de imitar comédias americanas se mantém ruidosa, inclusive nos momentos sentimentais envolvendo Alice e seu filho. E os roteiristas ainda acharam uma boa ideia rechear o filme de momentos-anedota — a saber, cenas em que os personagens comportam-se irrealisticamente pelo bem do remate imediato da piada. Mas essa falta de visão de jogo meio onipresente é compensada por uma boa quantidade de sacadas inteligentes, como a aparição pontual, em dois momentos distintos, de uma gravação de Alice quando criança, a qual se mostra reveladora sobre a personagem e sua família. Além disso, é dado mais material à divertida empregada Rosa, e a sua personalidade humilde, se ocasionalmente provocadora de piadas forçadas ("Do you wanna fuck?"), acaba sendo um contraponto saudável à descarada propaganda turística de Nova York que o resto do filme faz — algo que fica acentuado na hilária montagem musical que intercala a fogosa Marcela saindo de lojas de grife com sacolas cheias a Rosa maravilhando-se ao vasculhar as prateleiras de um supermercado.

Mas a melhor coisa a respeito desse De Pernas pro Ar 2 reside no quanto os realizadores parecem conhecer seu público, presenteando-o com referências sutis e detalhes que ajudam a criar um universo cômico interno — repare, por exemplo, no uso econômico do bizarro funk que se tornou música-tema do primeiro filme, ou no esforço em criar uma mitologia em torno do coelho de pelúcia. Também é notável a participação de Rodrigo Sant'Anna, em que os realizadores resistem à tentação de incluir uma referência óbvia a Valéria Vasques e optam por uma alusão sutil no finzinho da participação do comediante. Mas é claro que nada dessa auto-consciência seria suficiente para redimir a historinha medíocre não fosse o elenco, e a boa notícia é que os atores se mostram bem mais afinados do que no primeiro filme — se Ingrid Guimarães precisava carregar o primeiro nas costas e não conseguia, nessa continuação todos os seus colegas de elenco contribuem para o produto final, inclusive a antes risível Maria Paula, que, surpreendentemente, consegue convencer a maior parte do tempo na pele de Marcela. Avaliando De Pernas pro Ar 2 friamente, o filme não merece mais elogios do que uma romcom americana média, mas graças à sintonia dos atores esse conhecimento é disfarçado com sucesso. E já é ótimo que o enfraquecido gênero da comédia nacional esteja chegando a tanto.

Classificação final:

Homens de Preto 3, de Barry Sonnenfeld

Men in Black 3, EUA, 2012. Ação/Comédia/Sci-fi. 106 min. Direção: Barry Sonnenfeld. Escrito por: Etan Cohen. Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Jemaine Clement, Emma Thompson, Michael Stuhlbarg, Mike Colter, Bill Hader, David Rasche, Alice Eve. Classificação indicativa: 10 anos.

Se você, como eu, não está familiarizado com o universo dos filmes de Barry Sonnenfeld, Homens de Preto 3 pode ser uma boa introdução, já que, desde as cenas iniciais, o roteirista Etan Cohen faz o possível para que nenhum conceito pertinente ao universo maluco dos MIB fique confuso na mente dos não-iniciados. Com o jeitão de um filme-pipoca descompromissado, esse é um daqueles filmes que chegam perto de duas horas e parecem durar 30 minutos, tamanho o seu empenho em entreter uniformemente. E, de quebra, algumas passagens pisam fora da zona de conforto e tornam o filme mais sensível e intelectualmente inspirado que a maioria dos blockbusters. Tomando como ponto de partida dramático a indignação do Agente J com o jeito taciturno e ranzinza de Tommy Lee... err, Agente K, o roteiro começa cedo a se dedicar, ainda que em segundo plano, a explorar a relação entre os dois. Assim, não poderia ser mais conveniente o enredo de viagem no tempo, em que J precisa voltar ao ano de 1969 para impedir que Boris, o Animal mate K e provoque, 40 anos depois, um massivo e incombatível ataque dos Bogloditas à Terra. (LSD much?)

Isso porque, no passado, J conhece a versão menos-de-30 de K, e a interação entre os dois é inspirada, tanto graças ao roteiro quanto à performance de Josh Brolin (detalhes logo mais). Também é divertido ver o quartel-general dos MIB coberto de apetrechos sessentistas — uma prova do senso de humor da produção e dos diretores de arte, e que condiz perfeitamente com a veia cômica quase surrealista estabelecida pelo filme, e que, imagino, sempre foi uma das marcas registradas da série de Sonnenfeld. O segundo ato inteiro é uma brincadeira com o período, na verdade, com piadas que vão de Andy Warhol ao racismo da polícia. Mas, sight gags à parte, nós ainda estamos falando de viagens no tempo, e é irrepreensível a forma como o filme lida com o conceito, incitando dor de cabeça mais de uma vez sem abrir buracos na lógica e aproveitando a deixa para incluir observações sobre linhas do tempo alternativas através do memorável personagem de Michael Stuhlbarg, o arcaniano Griffin. Melhor que a encomenda para o filme 3 de uma cinessérie de sessão da tarde.

Não que Homens de Preto 3 seja perfeito, ou sequer perto disso: o diretor muitas vezes falha em estabelecer equilíbrio entre os momentos propositalmente asquerosos e os diálogos de fogo rápido, e tirando uma ou outra piada visual mais inspirada (como aquela logo no começo que envolve Lady Gaga e dura uns dois segundos), o filme não é lá muito inventivo visualmente. Mas o que se poderia esperar de um filme desses está lá, e em profusão: a maquiagem protética é impressionante, o ritmo é perfeito para um filme com o propósito de entreter, e o notável elenco se compromete ao máximo. O que me leva, claro, a Josh Brolin. Se é possível argumentar que Tommy Lee Jones faz o papel dele mesmo, então Brolin praticamente interpreta Jones — e não poderia ser mais bem-sucedido na tarefa, simulando a cadência da voz do ator e seus maneirismos sutis com perfeição absoluta, e chegando por vezes a nos fazer esquecer que é ele e não Jones que aparece na tela. Mas sua atuação não se restringe à imitação, acrescentando também uma inédita camada de leveza e otimismo ao agente K que enriquece a já delicada (e por vezes tocante) análise que o filme faz da relação entre ele e J. Logo, quando Jones volta a surgir na tela no desfecho, passamos, assim como J, a ver seu personagem com outros olhos, o que, no caso, é um feito e tanto. E, como a aparição final de Griffin confirma, Homens de Preto 3 acaba demonstrando ter conhecimento mais que suficiente da própria proposta, e compondo um argumento convincente para a continuação da franquia.

Classificação final:

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Resenha 13: "Cinco Anos de Noivado", de Nicholas Stoller

Emily Blunt e Jason Segel em Cinco Anos de Noivado. © Universal.
The Five-Year Engagement, EUA, 2012. Romance/Dramédia. 124 minutos. Direção: Nicholas Stoller. Escrito por: Jason Segel e Nicholas Stoller. Elenco: Jason Segel, Emily Blunt, Chris Pratt, Alison Brie, Rhys Ifans, Jacki Weaver, Jim Piddock, David Paymer, Mimi Kennedy, Mindy Kaling, Kevin Hart, Brian Posehn, Chris Parnell, Lauren Weedman, Tracee Chimo, Dakota Johnson, Randall Park. Classificação indicativa: A definir. R nos EUA.

(Ainda sem classificação indicativa no Brasil, mas, a julgar pelo conteúdo, será provavelmente 16 ou 18 anos. Aciono o A.S.I.R.)

Comédias românticas são um gênero complicado. Criticadas pela grande maioria delas se render facilmente aos clichês e resoluções fáceis, elas quase sempre têm que mirar o extremo oposto e desenvolver suas histórias de maneira tão crua e realista, sempre que cá e lá se esforçam para quebrar os preceitos batidos do gênero e fazer um relato mais maduro e sincero dos relacionamentos que abordam, que acabam por provocar a indiferença do espectador simplesmente pelo desprezo que sentimos pelos seus personagens, com suas falhas de caráter. Ora, um dos princípios incontornáveis da comédia romântica é justamente que precisamos conseguir torcer pelos personagens para nos importar com o que se sucede a eles. Assim, uma romcom só acerta o ponto quando consegue nos apresentar a personagens atraentes e desenhar seus arcos sem abrir mão da franqueza, o que, infelizmente, rareia. Qual não foi minha surpresa ao perceber, então, na segunda metade de Cinco Anos de Noivado, que eu não só torcia pelo final feliz de seus protagonistas, como ainda era capaz de sentir a dor e a felicidade intercaladas destes.

Claro, essa dramédia escrita pela mesma dupla de roteiristas de Os Muppets (haja versatilidade) vem do forno do produtor Judd Apatow (dê um Google), o que ajuda bastante. Mas Cinco Anos... vai além do escracho sofisticado de trabalhos como Missão Madrinha de Casamento e acaba se saindo uma das obras mais maduras do panteão de Apatow. O enredo já diz tudo: após ficarem noivos com apenas um ano de namoro, Tom (Segel) e Violet (Blunt) enfrentam uma série de barreiras de todos os tipos que os forçam a adiar cada vez mais o seu casamento, ao mesmo tempo em que se descobrem cada vez mais infelizes um com o outro. Poderia facilmente ser um melodrama pesado, mas é (no papel) uma comédia romântica. O diferencial aqui está na inteligência do roteiro, que, assim como no relativamente recente iraniano A Separação, aumenta a pressão sobre seus personagens gradativamente e extrai seus principais conflitos e curvas fechadas de decisões compreensíveis e até mesmo nobres destes. Dessa forma, Cinco Anos... se torna o estudo de um relacionamento complexo entre duas pessoas bem-intencionadas, e, graças à estruturação inteligente de seus personagens secundários, acaba sendo também, de maneira geral, uma desconstrução dos relacionamentos típicos de produções do gênero.

E a melhor parte dessa desconstrução é que o diretor, produtor e roteirista Stoller a conduz tendo como recurso constante algo que raramente se vê em produções como esta: sutileza. Assim, inicialmente nós acreditamos que o breve e errôneo envolvimento entre a irmã cética de Violet e o melhor amigo bobão de Tom será apenas uma dessas "decisões erradas feitas por pessoas embriagadas" com aparição pontual e cômica, mas Stoller nos surpreende ao jogar uma reviravolta sobre os dois coadjuvantes que os faz assumir a condição de um contraponto amargo para o relacionamento de Tom e Violet. O mesmo vale para os pais da noiva: se a maioria das comédias não resistiria a transformá-los em típicos "sogros divorciados", aqui eles são vistos de maneira realista, como a mãe de Violet confirma ao explicar para a filha que foi, na verdade, feliz em seu casamento. E reparem como a namorada troféu do pai de Violet dá lugar a outra nos minutos finais da projeção — um detalhe que confere honestidade ao clichê do ex-marido tarado.

Além de tudo, Stoller lança mão de uma série de simbolismos (isso mesmo: simbolismos!) para colorir a relação de Tom e Violet, indo do mais simples (percebam como a analogia dos donuts é usada para alterar repentinamente a imagem que temos de Tom) ao mais trabalhado (os relacionamentos pós-término em que os protagonistas se aventuram são repletos de detalhes sutis que mostram o quanto os dois erraram em se separar). O cartão-título é um dos mais brilhantes que já vi, sobrepondo a um pedido de casamento regado a fogos de artifício e um beijo hollywoodiano o sardônico letreiro "CINCO ANOS DE NOIVADO". E o que dizer da morte progressiva dos avós de Violet e Tom, que poderia tanto ser apenas um acréscimo de humor negro quanto conter uma leitura profunda sobre a chegada da idade adulta e o efeito que esta tem sobre o relacionamento dos dois?

É claro que toda essa ambição temática poderia comprometer o andamento narrativo do filme (ainda é, afinal, uma comédia romântica), e se por um lado a montagem acerta nas transições sofisticadas que destilam cada cena ao seu conteúdo essencial, por outro é inegável que uns quinze minutos a menos (são mais de duas horas) aumentariam o impacto do filme como um todo (apesar de me ocorrer a hipótese de a longa duração do filme ser perfeitamente intencional). Assim, Cinco Anos... acaba pecando por enfiar conteúdo demais em um só roteiro, e sou forçado a admitir que isso deixará muitas pessoas inquietas ou mesmo sonolentas, especialmente no terceiro ato. Ainda assim, eu sou muito mais um filme ambicioso com probleminhas de ritmo do que tantas outras romcoms que se preocupam apenas em divertir sem fazer pensar. Talvez seja por isso que essa produção teve sucesso apenas mediano: ela é boa demais, profunda demais para uma comédia romântica, a ponto de o humor às vezes parecer apenas um recurso para tornar o filme menos sério — o resultado disso é que cenas memoráveis como a discussão histérica entre o Elmo e o Come-Come (veja e entenderá) acabam ficando lado a lado com momentos dispensáveis como o acidente de cozinha sofrido pela Chef Sally.

Apesar de tudo, o filme ainda diverte bastante graças ao talento cômico dos atores — e, mais importante, consegue nos fazer cruzar os dedos pelo final feliz de Tom e Violet. E quando este finalmente chega, é de forma tão singela e emocionalmente honesta que nem de longe trai a melancolia que o resto do filme atingiu, apesar de ainda assim ser um momento absolutamente feliz. É uma representação da conquista do filme como um todo — e assim como Tom e Violet relembram ao longo dos anos o dia em que se conheceram, esse é um filme ao qual me vejo retornando muitas vezes. Não me lembro de ter me sentido assim com uma comédia romântica antes.

Classificação final:

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Resenha 12: "Toda Forma de Amor", de Mike Mills

Ewan McGregor, Mélanie Laurent e Cosmo em Toda Forma de Amor. © Focus Filmes.
Beginners, EUA, 2010. Romance/Dramédia. 105 minutos. Direção: Mike Mills. Escrito por: Mike Mills. Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic, Kai Lennox, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Cosmo. Classificação indicativa: 12 anos.

Toda Forma de Amor é uma gema. Não consigo pensar em um termo melhor para resumir a complexa simplicidade desse trabalho semibiográfico de Mike Mills, que lida com o amor em todas as suas formas com singeleza e originalidade estética ao mesmo tempo em que dá a seus atores um veículo e tanto para seus talentos — tanto é que o trabalho delicado de Christopher Plummer deu ao filme a sua única indicação (e vitória) no Oscar desse ano.

À época do seu lançamento unicamente em DVD no Brasil, Toda Forma de Amor era marquetado como um olhar sobre o "amor moderno", e, realmente, é difícil imaginar um filme mais apropriado, tanto estética quanto narrativamente, para o rótulo. Seguindo três momentos distintos da vida do protagonista Oliver — um, a sua infância nos anos 70, e os outros dois no passado recente —, a história narra o progresso do relacionamento entre ele e Anna, uma atriz francesa de passagem pela cidade onde ele mora, dois meses após a morte de seu pai Hal, e ainda se ocupa de recontar os últimos anos de vida deste ao lado do filho e também de seu jovem namorado — Hal é gay, mas só criou forças para sair do armário após a morte de sua esposa, e a essa altura ele já passava dos 70.

Não vale a pena dar mais detalhes sobre o enredo porque não há, exatamente, um enredo. Nós vemos Oliver e Anna descobrindo mais um sobre o outro em confissões lacrimosas sobre seus passados familiares, e assim se apaixonando; vemos Hal conseguindo convencer a todos de que está feliz apesar da descoberta de um câncer, enquanto Oliver observa desconfiado; vemos a mãe de Oliver tocando uma rotina que procura acrescer de felicidade para consolar o filho pela ausência de seu pai. Em todas essas tramas colineares, a dinâmica entre os personagens é assombrosa; em nenhum momento nós pensamos em nos lembrar de que aquelas pessoas não existem realmente. O relacionamento entre Oliver e Anna é por certo um dos mais verossímeis e orgânicos dos últimos anos no cinema, e isso se deve muito à química espetacular entre Ewan McGregor e Mélanie Laurent (mais sobre o elenco em cinco minutos).

E essa verossimilhança enriquece tematicamente Toda Forma de Amor, já que a proposta do filme é, primeiramente, retratar um relacionamento moderno e estudá-lo silenciosamente através de um panorama dos outros relacionamentos importantes da vida do protagonista. Dirigindo seu segundo roteiro de longa, Mills dá ao filme uma qualidade estética única (e eficiente para a história) ao usar fotos de arquivo e o voiceover de McGregor para estabelecer épocas e personagens. Ressaltando aspectos específicos de cada momento histórico de que fala — o presidente, a moda, a noção de beleza —, o filme traça um paralelo humano entre o presente e o passado, o que acrescenta mais um alicerce à ponte construída entre os diversos momentos da vida de Oliver. Quando se soma isso à astúcia e ao realismo da narrativa no seu belo painel dos amores do século 21, o resultado é uma produção verdadeiramente "moderna", tanto em sua temática quanto em sua abordagem.

Por trás dessa camada de chantily presente na fofura persistente (e bem-vinda) de seus protagonistas e do cãozinho Arthur ("interpretado" pelo jack russel Cosmo, que rivalizou com o Uggie de O Artista como cachorro-revelação de 2011), porém, esconde-se um profundo apuro psicológico por parte do realizador. O filme é, em segundo plano, um estudo de personagem de Oliver, e isso fica evidente na forma como as suas tramas são estruturadas — a narração sincera e nem um pouco expositória deste parece sugerir que ele enxerga o início do relacionamento com Anna com mais nostalgia e o falecimento do pai com relativa frieza, e é também acertada a decisão de não empregar o recurso durante as cenas de Oliver com a mãe, já que estas são momentos íntimos do protagonista, de que ele parece apenas se lembrar em segredo. O insight fornecido pelas "falas" de Arthur (vistas através de legendas) é providencial, mantendo-se condizente com a possível mentalidade de um cachorro e ao mesmo tempo servindo como espelho para os pensamentos do próprio Oliver (dizem, é bom lembrar, que você é o que o seu cachorro é).

O que me leva, é claro, ao elenco. Se o texto do filme explora com delicadeza e irretocável sinceridade os romances contemporâneos e seus desdobramentos, é preciso dar crédito aos atores por criarem personagens que surgem tão realistas a ponto de parecerem, de serem pessoas reais — é fácil acreditar, por exemplo, que Mary Page Keller e Keegan Boos são realmente mãe e filho, ou que Goran Visnjic está mesmo perdido de amores por Christopher Plummer. McGregor é confiável como sempre, expressando em seus olhares e expressões tudo aquilo que Oliver refreia em suas palavras, e o "apoio" de Laurent é formidável; sua atuação é tão rica e honesta que aparenta não ser, já que tudo o que vemos na tela é uma pessoa real e não uma atriz (OK, a personagem dela é uma atriz, mas você entende o que eu quero dizer). O elenco menor é competente, transmitindo a sensação de que o filme é povoado por pessoas sendo elas mesmas. Quanto a Plummer, só posso dizer que ele mereceu ter sido aplaudido de pé no Oscar.

O filme, na verdade, merecia mais indicações ao prêmio: o roteiro perspicaz de Mike Mills e a edição estilosa de Olivier Bugge Coutté eram também merecedores de atenção. Bem-sucedido no Oscar ou não, porém, Toda Forma de Amor merece ser visto. É um daqueles raros filmes em que a "suspensão da descrença" do espectador não é testada, não sendo sequer, na verdade, necessária: o grande mérito de Mills e seu elenco, aqui, é que tudo o que vemos na tela parece real em alguma medida. Até mesmo um cachorro falante.


Classificação final:
Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Eu acho que devo uma explicação (+ resenhas 5 a 9)

No acidentado princípio, este blog foi mais um ímpeto do que outra coisa. Considerava-o um exercício do meu senso crítico, que poderia ser colocado em prática se algum dia eu viesse a fazer filmes eu mesmo. Mas a vida atrapalhou a iniciativa e eu acabei entrando em um daqueles hiatos.

Hoje, felizmente, a vida parece ter dado um tempo, e como eu não tenho muita coisa melhor pra fazer, pretendo continuar a escrever resenhas para quaisquer filmes que eu assistir. Devido à grande lacuna entre a minha última resenha e o dia de hoje, os textos não mais se referirão a filmes que acabaram de ser lançados em DVD/BluRay ou no cinema, e sim a quaisquer lançamentos de quaisquer épocas (há uma infinidade de filmes dos últimos 14 anos me aguardando na prateleira, e eu pretendo ver pelo menos a maioria). Lançamentos, no geral, serão priorizados, mas não exclusivos.

Dito isso, me sinto na obrigação de redigir opiniões mais ou menos curtas sobre cinco dos seis filmes que eu assisti mais recentemente (o sexto ganhará um texto à parte). Eles são:

In the Loop, de Armando Ianucci (In the Loop, Inglaterra, 2009. Comédia.). Jamais conseguirei entender os critérios das distribuidoras daqui. Apesar de In the Loop ser, por cima, um filme difícil de entender para os brasileiros, é, no fundo, uma das produções inglesas mais universais lançadas nos últimos anos; na verdade, é acima de tudo um filme anti-guerra, sem dúvida um dos melhores já lançados sobre a Guerra do Iraque. E, apesar disso, não chegou sequer a ter um lançamento em DVD no Brasil. A história, que de tão crua e orgânica nem vale a pena ser resumida com muitos detalhes, é a de como uma série de erros e gafes públicas de secretários e generais dos governos dos EUA e da Inglaterra teriam levado ao início do conflito no Oriente Médio. Mas o espectro do filme vai em várias outras direções, chegando por vezes a assumir a dimensão de um atestado sofisticado do relacionamento entre o governo e o povo. Completamente verossímil tanto em seu roteiro (escrito por quatro pessoas a partir de um seriado cômico inglês da autoria do próprio diretor) quanto na abordagem de Ianucci, que consegue manter um ritmo incrivelmente vívido apesar do estilo "pseudo-documentário" que (corretamente) adota, In the Loop ainda tem o apoio de um grande elenco que contribui para torná-lo consistentemente hilário (Peter Capaldi rouba a cena por estar mais estourado, mas o trabalho difícil de atores como Tom Hollander é igualmente meritório e ambos mereciam indicações ao Oscar). É, por vezes, um filme assustador — e não porque escancara os horrores da guerra, mas porque nos dá uma ideia de quem são as autoridades por trás desses horrores.

Uma Vida Melhor, de Chris Weitz (A Better Life, EUA, 2011. Drama.). Lançado apenas em DVD no Brasil, este Uma Vida Melhor chamou alguma atenção no começo do ano pela indicação-surpresa do mexicano Demián Bichir ao Oscar de Melhor Ator (desbancando Leonardo DiCaprio em J. Edgar). Sexto trabalho diretorial de Chris Weitz, cujo currículo é um dos mais diversos que já vi, indo do primeiro American Pie a A Saga Crepúsculo: Lua Nova e passando por Um Grande Garoto e A Bússola de Ouro, esse relato da experiência de um imigrante ilegal e seu filho em Los Angeles é, certamente, um dos filmes mais maduros do cineasta — e, não obstante, uma produção esquecível. Pra falar do elefante na sala — a atuação de Bichir, obviamente —, não é difícil admitir que ele surpreende no papel, acabando por se revelar melhor do que o filme, que, apesar de resvalar em temas relevantes e fazer um retrato realista da vida dos imigrantes, não atinge a complexidade e as nuances que ressoam na performance contida de seu protagonista. A trama, para começar, sempre parece estar a serviço da proposta, o que diminui a força dos personagens e da própria mensagem do filme, além de tornar seu ritmo inconsistente. Os personagens secundários são apresentados de maneira confusa e desleixada, além de muitas vezes serem incapazes de ir além dos estereótipos (o melhor amigo do filho do principal é uma não-presença). E Weitz comete alguns tropeços inexplicáveis que expõem sua relativa inexperiência atrás das câmeras, como incluir um plano final completamente desnecessário dando um rápido vislumbre da vida de um personagem após seu destino. Apesar dessas falhas "técnicas", porém, o texto de Uma Vida Melhor consegue, na maior parte do tempo, ser humano e reverberante em sua exposição da realidade na qual seus personagens vivem — e assim o mérito das cenas mais instigantes (como aquela em que Luis pergunta ao pai "Por que todas essas pessoas pobres têm filhos?") vai quase todo para os roteiristas.

Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, EUA, 2011. Romance/Comédia/Fantasia.). É cada vez mais difícil encontrar filmes que proponham discussões ambiciosas sem recair em abordagens dramáticas ou até mesmo depressivas. A filmografia de Woody Allen tem a qualidade de entrar muitas vezes nessa categoria de filmes "leves, mas profundos", e Meia-Noite em Paris é um exemplo ótimo. Aproveitando a persona amigável do subestimado Owen Wilson como o Woody Allen da vez (no caso, Woody "Gil, o Roteirista" Allen), o filme consegue ser ao mesmo tempo um espelho crítico da sociedade e um tratado contra o cinismo. Allen está em grande forma atrás das câmeras, brincando com as expectativas do espectador sempre que pode e ressaltando através de sua direção arrojada tudo o que não é inteiramente expresso pelo excelente roteiro, pelo qual ele ganhou um Oscar (que não foi receber, em um ato costumeiro que sempre admirei nele). Além da ideia mais "clara" que o filme atesta — a de que viver no passado é besteira —, há ainda uma série de outras agulhadas dissolvidas na história aparentemente doce de um homem pacato e sonhador que tem a oportunidade insólita de visitar a Paris dos anos 20. O elenco ajuda — tanto Michael Sheen quanto Rachel McAdams estão admiravelmente detestáveis, e Corey Stoll rouba a cena em suas curtas aparições — assim como as belas locações e a fotografia aconchegante. E é maravilhoso ver um cineasta experiente como Allen em ação, amarrando as pontas da estrutura complexa do filme de forma absolutamente admirável no desfecho. Uma produção leve e adorável para qualquer idade — embora provavelmente chata para os muito novos —, Meia-Noite em Paris poderia ser visto pelos fãs mais cínicos do diretor como um trabalho trivial em comparação com obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Mas, como o próprio Allen ressalta aqui, nostalgia demais não vale a pena.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004. Romance/Drama/Sci-Fi.). Às vezes, eu me sinto sinceramente envergonhado de ter assistido a tão poucos filmes escritos por Charlie Kaufman. Além deste, que à época fora considerado seu magnum opus, tendo inclusive lhe rendido seu único Oscar, assisti apenas ao relativamente recente Sinédoque, Nova York. Se esses dois filmes valem alguma coisa, acho que dá pra falar que todo o hype em torno do roteirista Kaufman (também "autor" de Quero Ser John Malkovich e Adaptação) é absolutamente justo. Brilho Eterno... já é praticamente um clássico, então eu não tenho muito mais para falar a seu respeito do que o que já foi dito, mas o que eu posso falar é que qualquer um que não viu esse filme ainda (ou tentou ver e dormiu, o que aconteceu com muita gente) está fazendo a si mesmo um desserviço. Esse drama romântico maluco, pioneiro em retratar as alegrias e as decepções do amor moderno com franqueza (algo que muitos romances passariam a fazer também, um dos casos mais famosos sendo o do ótimo (500) Dias com Ela), é uma daquelas epítomes da linguagem cinematográfica que surgem de tempos em tempos para nos mostrar para que (e do que) o cinema é feito. Criando simbolismos e metáforas dignos de David Lynch e com a profundidade temática de um filme de Francis Coppola ao ambientar o filme quase todo na mente do protagonista, Kaufman e o também visionário diretor francês Michel Gondry (cuja mão inventiva sempre se faz sentir apesar do quanto o roteiro de Kaufman se impõe) fizeram uma obra-prima simultaneamente tocante e assombrosa, com uma complexidade estrutural que poucas vezes teve paralelos e um rigor psicológico impressionante na construção de seus personagens, subvertendo convenções a todo momento e jamais deixando algo ficar solto na narrativa sem que haja um propósito temático específico. Além disso tudo, é claro, todos os atores do filme registram aqui atuações que figuram entre as melhores de suas soberbas carreiras (Jim Carrey em particular). Na superfície, Brilho Eterno... é um filme sobre um relacionamento romântico. Mas, na soma de suas partes, é um filme sobre todos os relacionamentos românticos, e os fatores bons, ruins ou péssimos que os cercam.

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (Moonrise Kingdom, EUA, 2012. Dramédia/Romance.). Eu realmente gostaria de dar cinco estrelas a Moonrise Kingdom — mas não posso, porque embora seja praticamente desprovido de falhas, ainda é um filme que só faz sentido conceitual no contexto de sua produção: sem saber que se trata de um marco na evolução humana dos trabalhos do cultuado Wes Anderson, fica difícil levar esse filme a sério como algo mais do que uma ode à inocência e à eventual perda dela. Na verdade, o olhar de Anderson sobre as pessoas e seus erros, durante quase todo o filme, é apenas observacional, privando o conjunto da profundidade analítica de alguns de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, o delicioso senso estético de Anderson e o imenso respeito que este tem por seus personagens se fazem sentir a todo momento em Moonrise Kingdom, que consegue ser ainda mais caloroso, emocional e envolvente do que o excepcional O Fantástico Sr. Raposo (a segunda melhor produção animada no melhor ano da história recente da animação). Pra começar, a escolha dos dois jovens atores estreantes que encabeçam o elenco estrelado é perfeita. Jared Gilman e Kara Hawyard conseguem fazer frente às atuações memoráveis de veteranos como Bruce Willis e Frances McDormand, além de exibirem bem mais química do que a maioria dos casais de comédias românticas — assim tornando a cena da fuga dos dois entre o primeiro e o segundo ato um momento inesquecível por sua organicidade. O filme todo, na verdade, é recheado de bons momentos, inclusive uma série de analogias inteligentes, visuais e sonoras, que servem para definir os complexos personagens e suas motivações e inseguranças. Pontuando com precisão a também antológica sequência da tempestade, a trilha de Alexandre Desplat é ao mesmo tempo aconchegante e climática, e o mesmo pode ser dito do trabalho minucioso dos diretores de arte. No todo, porém, esse é um triunfo de Anderson, que consegue imprimir seu estilo ao filme ao mesmo tempo em que cria uma obra emocionante capaz de tocar a todos.