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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Resenhas back-to-back: 15/16

Eu assisti a mais ou menos nove filmes nos últimos 6 dias, e pretendo escrever sobre todos eles. Essa situação exige medidas drásticas, e o que eu decidi fazer foi inaugurar um novo bloco batizado de "Resenhas back-to-back", em que escreverei sobre dois filmes com uma cajadada só em textos mais curtos que o normal.

Os escolhidos de hoje não foram assistidos em sequência (o filme que escrevi entre os dois será discutido isoladamente em outra inauguração de bloco mais tarde), mas são aqueles que inspiraram os textos mais curtos. Uma já saiu de cartaz faz tempo e a outra acabou de entrar, porém eu exorto-vos a desconsiderar a diferença de tempo.

De Pernas pro Ar 2, de Roberto Santucci

Brasil, 2012. Comédia/Romance. 98 min. Direção: Roberto Santucci. Escrito por: Mariza Leão, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães e Marcelo Saback. Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Maria Paula, Eriberto Leão, Denise Weinberg, Cristina Pereira, Christine Fernandes, Tatá Werneck, Luis Miranda. Classificação indicativa: 14 anos.

Me ocorreu há algum tempo que eu nunca escrevi nada sobre um filme nacional nesse blog, provavelmente porque eu raramente assisto a produções brasileiras (não há um motivo específico para isso, antes que você pergunte). Por circunstância, acabei indo ver essa semana a continuação justamente daquele que, se bem me lembro, foi o último nacional que assisti. E, se De Pernas pro Ar chegava a ser embaraçoso em sua ineptidão, De Pernas pro Ar 2 acabou se revelando uma grata surpresa. Não tão bom a ponto de redimir o primeiro, mas aí já é pedir demais. Pra começar, o orçamento do filme teve um bem-vindo upgrade, eliminando os erros grosseiros de produção que tornavam o primeiro impossível de levar a sério. Em segundo lugar, os realizadores perceberam que enquadrar mulheres conversando sobre vibradores não é suficiente para dar interesse feminino a um flime, e investiram em uma trama que pode agradar tanto a, erm, "mulheres modernas" quanto ao resto do público em geral. E, se é inegável a confusão provocada por ambientar metade da ação em um spa isolado cheio de "figuras" e a outra metade em plena Nova York (o primeiro ato parece até existir apenas para que a projeção alcance 90 minutos), pelo menos o filme é tonalmente sólido.

Ainda assim, a saga de Alice tentando inicialmente relaxar em um spa para depois ir abrir uma filial da Sexy Delícia na Big Apple sofre de muitos problemas herdados de seu antecessor: o furor em torno da rede de sex shops operada pela protagonista continua não convencendo, e a tentativa de imitar comédias americanas se mantém ruidosa, inclusive nos momentos sentimentais envolvendo Alice e seu filho. E os roteiristas ainda acharam uma boa ideia rechear o filme de momentos-anedota — a saber, cenas em que os personagens comportam-se irrealisticamente pelo bem do remate imediato da piada. Mas essa falta de visão de jogo meio onipresente é compensada por uma boa quantidade de sacadas inteligentes, como a aparição pontual, em dois momentos distintos, de uma gravação de Alice quando criança, a qual se mostra reveladora sobre a personagem e sua família. Além disso, é dado mais material à divertida empregada Rosa, e a sua personalidade humilde, se ocasionalmente provocadora de piadas forçadas ("Do you wanna fuck?"), acaba sendo um contraponto saudável à descarada propaganda turística de Nova York que o resto do filme faz — algo que fica acentuado na hilária montagem musical que intercala a fogosa Marcela saindo de lojas de grife com sacolas cheias a Rosa maravilhando-se ao vasculhar as prateleiras de um supermercado.

Mas a melhor coisa a respeito desse De Pernas pro Ar 2 reside no quanto os realizadores parecem conhecer seu público, presenteando-o com referências sutis e detalhes que ajudam a criar um universo cômico interno — repare, por exemplo, no uso econômico do bizarro funk que se tornou música-tema do primeiro filme, ou no esforço em criar uma mitologia em torno do coelho de pelúcia. Também é notável a participação de Rodrigo Sant'Anna, em que os realizadores resistem à tentação de incluir uma referência óbvia a Valéria Vasques e optam por uma alusão sutil no finzinho da participação do comediante. Mas é claro que nada dessa auto-consciência seria suficiente para redimir a historinha medíocre não fosse o elenco, e a boa notícia é que os atores se mostram bem mais afinados do que no primeiro filme — se Ingrid Guimarães precisava carregar o primeiro nas costas e não conseguia, nessa continuação todos os seus colegas de elenco contribuem para o produto final, inclusive a antes risível Maria Paula, que, surpreendentemente, consegue convencer a maior parte do tempo na pele de Marcela. Avaliando De Pernas pro Ar 2 friamente, o filme não merece mais elogios do que uma romcom americana média, mas graças à sintonia dos atores esse conhecimento é disfarçado com sucesso. E já é ótimo que o enfraquecido gênero da comédia nacional esteja chegando a tanto.

Classificação final:

Homens de Preto 3, de Barry Sonnenfeld

Men in Black 3, EUA, 2012. Ação/Comédia/Sci-fi. 106 min. Direção: Barry Sonnenfeld. Escrito por: Etan Cohen. Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Jemaine Clement, Emma Thompson, Michael Stuhlbarg, Mike Colter, Bill Hader, David Rasche, Alice Eve. Classificação indicativa: 10 anos.

Se você, como eu, não está familiarizado com o universo dos filmes de Barry Sonnenfeld, Homens de Preto 3 pode ser uma boa introdução, já que, desde as cenas iniciais, o roteirista Etan Cohen faz o possível para que nenhum conceito pertinente ao universo maluco dos MIB fique confuso na mente dos não-iniciados. Com o jeitão de um filme-pipoca descompromissado, esse é um daqueles filmes que chegam perto de duas horas e parecem durar 30 minutos, tamanho o seu empenho em entreter uniformemente. E, de quebra, algumas passagens pisam fora da zona de conforto e tornam o filme mais sensível e intelectualmente inspirado que a maioria dos blockbusters. Tomando como ponto de partida dramático a indignação do Agente J com o jeito taciturno e ranzinza de Tommy Lee... err, Agente K, o roteiro começa cedo a se dedicar, ainda que em segundo plano, a explorar a relação entre os dois. Assim, não poderia ser mais conveniente o enredo de viagem no tempo, em que J precisa voltar ao ano de 1969 para impedir que Boris, o Animal mate K e provoque, 40 anos depois, um massivo e incombatível ataque dos Bogloditas à Terra. (LSD much?)

Isso porque, no passado, J conhece a versão menos-de-30 de K, e a interação entre os dois é inspirada, tanto graças ao roteiro quanto à performance de Josh Brolin (detalhes logo mais). Também é divertido ver o quartel-general dos MIB coberto de apetrechos sessentistas — uma prova do senso de humor da produção e dos diretores de arte, e que condiz perfeitamente com a veia cômica quase surrealista estabelecida pelo filme, e que, imagino, sempre foi uma das marcas registradas da série de Sonnenfeld. O segundo ato inteiro é uma brincadeira com o período, na verdade, com piadas que vão de Andy Warhol ao racismo da polícia. Mas, sight gags à parte, nós ainda estamos falando de viagens no tempo, e é irrepreensível a forma como o filme lida com o conceito, incitando dor de cabeça mais de uma vez sem abrir buracos na lógica e aproveitando a deixa para incluir observações sobre linhas do tempo alternativas através do memorável personagem de Michael Stuhlbarg, o arcaniano Griffin. Melhor que a encomenda para o filme 3 de uma cinessérie de sessão da tarde.

Não que Homens de Preto 3 seja perfeito, ou sequer perto disso: o diretor muitas vezes falha em estabelecer equilíbrio entre os momentos propositalmente asquerosos e os diálogos de fogo rápido, e tirando uma ou outra piada visual mais inspirada (como aquela logo no começo que envolve Lady Gaga e dura uns dois segundos), o filme não é lá muito inventivo visualmente. Mas o que se poderia esperar de um filme desses está lá, e em profusão: a maquiagem protética é impressionante, o ritmo é perfeito para um filme com o propósito de entreter, e o notável elenco se compromete ao máximo. O que me leva, claro, a Josh Brolin. Se é possível argumentar que Tommy Lee Jones faz o papel dele mesmo, então Brolin praticamente interpreta Jones — e não poderia ser mais bem-sucedido na tarefa, simulando a cadência da voz do ator e seus maneirismos sutis com perfeição absoluta, e chegando por vezes a nos fazer esquecer que é ele e não Jones que aparece na tela. Mas sua atuação não se restringe à imitação, acrescentando também uma inédita camada de leveza e otimismo ao agente K que enriquece a já delicada (e por vezes tocante) análise que o filme faz da relação entre ele e J. Logo, quando Jones volta a surgir na tela no desfecho, passamos, assim como J, a ver seu personagem com outros olhos, o que, no caso, é um feito e tanto. E, como a aparição final de Griffin confirma, Homens de Preto 3 acaba demonstrando ter conhecimento mais que suficiente da própria proposta, e compondo um argumento convincente para a continuação da franquia.

Classificação final:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Eu acho que devo uma explicação (+ resenhas 5 a 9)

No acidentado princípio, este blog foi mais um ímpeto do que outra coisa. Considerava-o um exercício do meu senso crítico, que poderia ser colocado em prática se algum dia eu viesse a fazer filmes eu mesmo. Mas a vida atrapalhou a iniciativa e eu acabei entrando em um daqueles hiatos.

Hoje, felizmente, a vida parece ter dado um tempo, e como eu não tenho muita coisa melhor pra fazer, pretendo continuar a escrever resenhas para quaisquer filmes que eu assistir. Devido à grande lacuna entre a minha última resenha e o dia de hoje, os textos não mais se referirão a filmes que acabaram de ser lançados em DVD/BluRay ou no cinema, e sim a quaisquer lançamentos de quaisquer épocas (há uma infinidade de filmes dos últimos 14 anos me aguardando na prateleira, e eu pretendo ver pelo menos a maioria). Lançamentos, no geral, serão priorizados, mas não exclusivos.

Dito isso, me sinto na obrigação de redigir opiniões mais ou menos curtas sobre cinco dos seis filmes que eu assisti mais recentemente (o sexto ganhará um texto à parte). Eles são:

In the Loop, de Armando Ianucci (In the Loop, Inglaterra, 2009. Comédia.). Jamais conseguirei entender os critérios das distribuidoras daqui. Apesar de In the Loop ser, por cima, um filme difícil de entender para os brasileiros, é, no fundo, uma das produções inglesas mais universais lançadas nos últimos anos; na verdade, é acima de tudo um filme anti-guerra, sem dúvida um dos melhores já lançados sobre a Guerra do Iraque. E, apesar disso, não chegou sequer a ter um lançamento em DVD no Brasil. A história, que de tão crua e orgânica nem vale a pena ser resumida com muitos detalhes, é a de como uma série de erros e gafes públicas de secretários e generais dos governos dos EUA e da Inglaterra teriam levado ao início do conflito no Oriente Médio. Mas o espectro do filme vai em várias outras direções, chegando por vezes a assumir a dimensão de um atestado sofisticado do relacionamento entre o governo e o povo. Completamente verossímil tanto em seu roteiro (escrito por quatro pessoas a partir de um seriado cômico inglês da autoria do próprio diretor) quanto na abordagem de Ianucci, que consegue manter um ritmo incrivelmente vívido apesar do estilo "pseudo-documentário" que (corretamente) adota, In the Loop ainda tem o apoio de um grande elenco que contribui para torná-lo consistentemente hilário (Peter Capaldi rouba a cena por estar mais estourado, mas o trabalho difícil de atores como Tom Hollander é igualmente meritório e ambos mereciam indicações ao Oscar). É, por vezes, um filme assustador — e não porque escancara os horrores da guerra, mas porque nos dá uma ideia de quem são as autoridades por trás desses horrores.

Uma Vida Melhor, de Chris Weitz (A Better Life, EUA, 2011. Drama.). Lançado apenas em DVD no Brasil, este Uma Vida Melhor chamou alguma atenção no começo do ano pela indicação-surpresa do mexicano Demián Bichir ao Oscar de Melhor Ator (desbancando Leonardo DiCaprio em J. Edgar). Sexto trabalho diretorial de Chris Weitz, cujo currículo é um dos mais diversos que já vi, indo do primeiro American Pie a A Saga Crepúsculo: Lua Nova e passando por Um Grande Garoto e A Bússola de Ouro, esse relato da experiência de um imigrante ilegal e seu filho em Los Angeles é, certamente, um dos filmes mais maduros do cineasta — e, não obstante, uma produção esquecível. Pra falar do elefante na sala — a atuação de Bichir, obviamente —, não é difícil admitir que ele surpreende no papel, acabando por se revelar melhor do que o filme, que, apesar de resvalar em temas relevantes e fazer um retrato realista da vida dos imigrantes, não atinge a complexidade e as nuances que ressoam na performance contida de seu protagonista. A trama, para começar, sempre parece estar a serviço da proposta, o que diminui a força dos personagens e da própria mensagem do filme, além de tornar seu ritmo inconsistente. Os personagens secundários são apresentados de maneira confusa e desleixada, além de muitas vezes serem incapazes de ir além dos estereótipos (o melhor amigo do filho do principal é uma não-presença). E Weitz comete alguns tropeços inexplicáveis que expõem sua relativa inexperiência atrás das câmeras, como incluir um plano final completamente desnecessário dando um rápido vislumbre da vida de um personagem após seu destino. Apesar dessas falhas "técnicas", porém, o texto de Uma Vida Melhor consegue, na maior parte do tempo, ser humano e reverberante em sua exposição da realidade na qual seus personagens vivem — e assim o mérito das cenas mais instigantes (como aquela em que Luis pergunta ao pai "Por que todas essas pessoas pobres têm filhos?") vai quase todo para os roteiristas.

Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, EUA, 2011. Romance/Comédia/Fantasia.). É cada vez mais difícil encontrar filmes que proponham discussões ambiciosas sem recair em abordagens dramáticas ou até mesmo depressivas. A filmografia de Woody Allen tem a qualidade de entrar muitas vezes nessa categoria de filmes "leves, mas profundos", e Meia-Noite em Paris é um exemplo ótimo. Aproveitando a persona amigável do subestimado Owen Wilson como o Woody Allen da vez (no caso, Woody "Gil, o Roteirista" Allen), o filme consegue ser ao mesmo tempo um espelho crítico da sociedade e um tratado contra o cinismo. Allen está em grande forma atrás das câmeras, brincando com as expectativas do espectador sempre que pode e ressaltando através de sua direção arrojada tudo o que não é inteiramente expresso pelo excelente roteiro, pelo qual ele ganhou um Oscar (que não foi receber, em um ato costumeiro que sempre admirei nele). Além da ideia mais "clara" que o filme atesta — a de que viver no passado é besteira —, há ainda uma série de outras agulhadas dissolvidas na história aparentemente doce de um homem pacato e sonhador que tem a oportunidade insólita de visitar a Paris dos anos 20. O elenco ajuda — tanto Michael Sheen quanto Rachel McAdams estão admiravelmente detestáveis, e Corey Stoll rouba a cena em suas curtas aparições — assim como as belas locações e a fotografia aconchegante. E é maravilhoso ver um cineasta experiente como Allen em ação, amarrando as pontas da estrutura complexa do filme de forma absolutamente admirável no desfecho. Uma produção leve e adorável para qualquer idade — embora provavelmente chata para os muito novos —, Meia-Noite em Paris poderia ser visto pelos fãs mais cínicos do diretor como um trabalho trivial em comparação com obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Mas, como o próprio Allen ressalta aqui, nostalgia demais não vale a pena.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004. Romance/Drama/Sci-Fi.). Às vezes, eu me sinto sinceramente envergonhado de ter assistido a tão poucos filmes escritos por Charlie Kaufman. Além deste, que à época fora considerado seu magnum opus, tendo inclusive lhe rendido seu único Oscar, assisti apenas ao relativamente recente Sinédoque, Nova York. Se esses dois filmes valem alguma coisa, acho que dá pra falar que todo o hype em torno do roteirista Kaufman (também "autor" de Quero Ser John Malkovich e Adaptação) é absolutamente justo. Brilho Eterno... já é praticamente um clássico, então eu não tenho muito mais para falar a seu respeito do que o que já foi dito, mas o que eu posso falar é que qualquer um que não viu esse filme ainda (ou tentou ver e dormiu, o que aconteceu com muita gente) está fazendo a si mesmo um desserviço. Esse drama romântico maluco, pioneiro em retratar as alegrias e as decepções do amor moderno com franqueza (algo que muitos romances passariam a fazer também, um dos casos mais famosos sendo o do ótimo (500) Dias com Ela), é uma daquelas epítomes da linguagem cinematográfica que surgem de tempos em tempos para nos mostrar para que (e do que) o cinema é feito. Criando simbolismos e metáforas dignos de David Lynch e com a profundidade temática de um filme de Francis Coppola ao ambientar o filme quase todo na mente do protagonista, Kaufman e o também visionário diretor francês Michel Gondry (cuja mão inventiva sempre se faz sentir apesar do quanto o roteiro de Kaufman se impõe) fizeram uma obra-prima simultaneamente tocante e assombrosa, com uma complexidade estrutural que poucas vezes teve paralelos e um rigor psicológico impressionante na construção de seus personagens, subvertendo convenções a todo momento e jamais deixando algo ficar solto na narrativa sem que haja um propósito temático específico. Além disso tudo, é claro, todos os atores do filme registram aqui atuações que figuram entre as melhores de suas soberbas carreiras (Jim Carrey em particular). Na superfície, Brilho Eterno... é um filme sobre um relacionamento romântico. Mas, na soma de suas partes, é um filme sobre todos os relacionamentos românticos, e os fatores bons, ruins ou péssimos que os cercam.

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (Moonrise Kingdom, EUA, 2012. Dramédia/Romance.). Eu realmente gostaria de dar cinco estrelas a Moonrise Kingdom — mas não posso, porque embora seja praticamente desprovido de falhas, ainda é um filme que só faz sentido conceitual no contexto de sua produção: sem saber que se trata de um marco na evolução humana dos trabalhos do cultuado Wes Anderson, fica difícil levar esse filme a sério como algo mais do que uma ode à inocência e à eventual perda dela. Na verdade, o olhar de Anderson sobre as pessoas e seus erros, durante quase todo o filme, é apenas observacional, privando o conjunto da profundidade analítica de alguns de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, o delicioso senso estético de Anderson e o imenso respeito que este tem por seus personagens se fazem sentir a todo momento em Moonrise Kingdom, que consegue ser ainda mais caloroso, emocional e envolvente do que o excepcional O Fantástico Sr. Raposo (a segunda melhor produção animada no melhor ano da história recente da animação). Pra começar, a escolha dos dois jovens atores estreantes que encabeçam o elenco estrelado é perfeita. Jared Gilman e Kara Hawyard conseguem fazer frente às atuações memoráveis de veteranos como Bruce Willis e Frances McDormand, além de exibirem bem mais química do que a maioria dos casais de comédias românticas — assim tornando a cena da fuga dos dois entre o primeiro e o segundo ato um momento inesquecível por sua organicidade. O filme todo, na verdade, é recheado de bons momentos, inclusive uma série de analogias inteligentes, visuais e sonoras, que servem para definir os complexos personagens e suas motivações e inseguranças. Pontuando com precisão a também antológica sequência da tempestade, a trilha de Alexandre Desplat é ao mesmo tempo aconchegante e climática, e o mesmo pode ser dito do trabalho minucioso dos diretores de arte. No todo, porém, esse é um triunfo de Anderson, que consegue imprimir seu estilo ao filme ao mesmo tempo em que cria uma obra emocionante capaz de tocar a todos.

sábado, 24 de março de 2012

Resenha 4: "Os Muppets", de James Bobin

Jason Segel, Amy Adams, Kermit, Rowlf, Janice, Scooter, Animal, Miss Poogy, Sgto. Floyd Pepper, Gonzo, Cozinheiro Sueco, Sam a Águia, Lew Zealand, Urso Fozzie, Dr. Teeth, Dr. Bunsen e Walter em Os Muppets. © Disney.
The Muppets, EUA, 2011. Comédia/Família/Musical. 103 minutos. Direção: James Bobin. Escrito por: Jason Segel e Nicholas Stoller. Elenco: Jason Segel, Amy Adams, Peter Linz, Chris Cooper, Rashida Jones, Steve Whitmire, Eric Jacobson, Dave Goelz, Bill Barretta, Jack Black. Classificação indicativa: Livre.

Eu estava muito ansioso para que Os Muppets saísse em DVD, por vários motivos. Primeiro, a crítica amou o filme, que teve uma pontuação de 96% no agregador de críticas Rotten Tomatoes, tornando-o o segundo maior sucesso de crítica do circuito comercial em 2011. Segundo, eu nunca tinha tido contato com os Muppets antes (exceto pelo vídeo de Mahna Mahna no Youtube), e todo mundo ama os Muppets, e eu queria muito saber por quê. Terceiro, é um musical, e eu sou uma daquelas pessoas estranhas que gostam de musicais. Por isso tudo, eu fui atrás para assistir assim que o filme passou a constar como um item disponível nas lojas, e não me decepcionei. Trata-se, possivelmente, do melhor filme família do ano que passou.

O filme já abre em grande estilo: um divertido número musical na cidadezinha fictícia de Smalltown, na qual moram Gary (Jason Segel) e seu irmão, o homem-muppet Walter (voz de Peter Linz). Gary é superfã dos Muppets e está animado com uma viagem iminente para Los Angeles com o irmão e a cunhada Mary (Amy Adams), na qual pretende visitar o estúdio deles. Lá, uma decepção: o lugar está caindo aos pedaços, os Muppets não se encontram mais e conta-se nos dedos o número de visitantes. No lugar errado e na hora errada, Walter acaba testemunhando Statler e Waldorf (os dois velhinhos que falam mal de todo mundo) vendendo o teatro dos Muppets para o magnata do petróleo Tex Richman (Chris Cooper), que, uma vez sozinho com seus capangas Bobo o Urso e Tio Deadly (também Muppets!), revela que pretende derrubar tudo para extrair petróleo. Há uma brecha no contrato, claro: se os Muppets conseguirem 10 milhões de dólares antes do prazo de duas semanas se encerrar, o teatro é deles novamente. Desesperado, Walter insiste em ir atrás de Kermit, o Sapo (conhecido no Brasil como Caco) e eles acabam resolvendo reunir todos os Muppets novamente para fazer um teleton e tentar arrecadar os 10 milhões.

No processo, fica evidente que o filme possui muitas das características que tornaram os Muppets tão populares: com a ajuda do hilário mordomo de Kermit, o "Robô dos Anos 80", eles vão atrás de todos os Muppets, um por um, a começar pelo Urso Fozzie, que está trabalhando como vocalista em uma banda cover dos Muppets, os "Moopets". Todos os antigos membros do The Muppet Show viraram a página; no entanto, a nostalgia coletiva e o apreço que têm pelo antigo teatro (e pelo que ele significou na vida deles, conclui-se) faz com que, ao final de uma montagem lotada de referências ao passado dos personagens, todos estejam dentro do mesmo carro, indo para Paris ("por mapa", em uma das várias piadas difíceis de explicar que povoam o roteiro hilário) para tentar persuadir a fogosa Miss Piggy, agora editora plus-size da Vogue parisiense, a juntar-se a eles. Ela se recusa; está com a vida feita, prometeu a si mesma não olhar pra trás e ainda não perdoou o ex, Kermit, por alguma coisa que não fica clara (pelo que dá pra entender, ele pulou fora do noivado anos antes). Não seja por isso: entra, no lugar dela, Miss Poggy, sua versão "Moopet" masculinizada. Os Muppets seguem em frente com a ideia, e, após uma série de "nãos" das principais emissoras americanas — ninguém mais liga para os Muppets, diz a executiva interpretada por Rashida Jones —, acabam conseguindo um espaço na programação da ficcional CDE, graças ao cancelamento inesperado do popular programa Punch Teacher ou "Esmurre o Professor" (apenas uma das alfinetadas presentes no filme, desta vez à alienação dessa geração). Sob uma condição: deverá haver uma participação especial.

Com o conflito estabelecido, o filme passa a ser aquilo que deveria ser: só risos. Tudo aquilo que se espera de um bom filme dos Muppets está lá: as incontáveis e engraçadíssimas participações especiais — Emily Blunt, Mickey Rooney, Sarah Silverman, Zach Galifianakis, Alan Arkin, Kristen Schaal, Neil Patrick Harris, Whoopi Goldberg, Selena Gomez, Jim Parsons e Ken Jeong, só pra citar algumas —; as ótimas canções, de autoria de Bret McKenzie, co-protagonista e co-criador da série Flight of the Conchords; revitalizações de canções clássicas como Rainbow Connection e Mahna Mahna; auto-referências espirituosas (atores convidados mais jovens não sabem quem são os Muppets) e doses cavalares — e muito bem-vindas — de meta-humor (para quem não sabe, é quando um personagem diz, por exemplo, "Nossa! Essa explosão estava no orçamento do filme?"). Há até uma divertida aparição de Jack Black no papel dele mesmo, sequestrado e forçado a ser a "participação especial" do show. É interessante, também, notar o quanto o filme se esforça em ser offbeat; diferentemente de outros do gênero, aqui os personagens reconhecem que acabaram de participar de números musicais.

Risadas à parte, porém, o grande mérito de Os Muppets consiste em o filme não se deixar tornar-se entretenimento fácil, como é de praxe nas comédias e nos filmes família hoje em dia. Os personagens são tridimensionais, têm conflitos — conflitos superficiais, vá lá, mas quem esperava algo diferente de um filme dos Muppets? — e nos identificamos com eles, até certo ponto: Mary está triste por Gary ainda não a ter pedido em casamento após dez anos (!) de namoro; tanto Gary como Walter, em dado momento, têm crises de identidade e ficam sem saber se são homens ou muppets (a canção na qual esse conflito existencial é resolvido ganhou o Oscar, o único do filme e o único até hoje ganhado por um filme dos Muppets); os capangas do vilão Tex Richman são também Muppets e ficam na dúvida sobre trair seus iguais, e por aí vai. Em suma: é um bom filme, mesmo alheio às referências nostálgicas e bem-humoradas que deliciarão fãs de longa data. O elenco é afinado e as participações especiais o complementam soberbamente. O fluxo é ótimo, com risadas ininterruptas. Há uma boa mensagem (embora tenha sido tachada de comunista) para as crianças mais novas. Somando a isso tudo o fato de estarmos lidando com os MUPPETS, é impossível não gostar do filme. Parabéns ao ator/roteirista/fã Segel, que tomou a iniciativa de fazer um filme com os personagens de Jim Henson após eles passarem mais de uma década longe da tela grande. Graças a essa inciativa, pode-se agora afirmar com segurança: os Muppets estão de volta.


Classificação final:
Oscar: Melhor Canção Original, "Man or Muppet"