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sábado, 25 de janeiro de 2014

Resenha 18: "Ela", de Spike Jonze

Joaquin Phoenix em Ela. © Warner Bros.
Her, EUA, 2013. Romance/Sci-fi/Dramédia. 126 minutos. Direção: Spike Jonze. Escrito por: Spike Jonze. Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher, Laura Kai Chen, Portia Doubleday, Scarlett Johansson. Classificação indicativa: A definir. R nos EUA.

Nota: eu originalmente não ia escrever resenhas individuais para nenhum dos filmes indicados ao Oscar — eles seriam cobertos em um especial futuro que utilizaria a premiação como forma de relembrar o ano que se passou — mas vou fazer uma exceção aqui. O especial ainda será redigido, em breve.

A certa altura de Ela, Spike Jonze roda uma cena de sexo particularmente climática. Trata-se da "consumação" do relacionamento cuidadosamente construído entre os protagonistas Theodore e Samantha, e é sem dúvida uma das cenas mais marcantes de um filme repleto destas, tanto pelo intimismo destemido com que a sequência se desenrola quanto pelo diálogo antológico que os dois personagens compartilham e que coloca em evidência o significado daquele momento para ambos. É incomum para quaisquer filmes representar o ato sexual de forma tão simultaneamente natural e poética, mas Jonze, juntamente com Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, mostra-se à altura da tarefa, o que resulta em alguns minutos infinitamente mais envolventes e impactantes do que uma infinidade de cenas que lançam mão da nudez e do sexo crus e óbvios tencionando impressionar pelo caminho mais fácil. Eis, porém, o detalhe que diferencia esta de outras boas cenas de sexo: imediatamente antes de a ação tornar-se explícita, Jonze insere um fade out que centraliza a força da cena apenas no som, e limita todo o seu conteúdo visual à imaginação do público. Nada mais apropriado, considerando que Samantha é um sistema operacional com presença física nula.

Tal é o mote do roteiro, que se passa num futuro impreciso mas próximo: em meio aos edifícios pós-modernos de uma Los Angeles apenas um tantinho futurista, o solitário Theodore Twombly passa seus dias escrevendo cartas profundamente emotivas por encomenda, ouvindo as atualizações de um robótico assistente pessoal, jogando videogame, relembrando momentos de seu casamento recém-desmoronado e vagando por aí enfiado em calças de cintura alta que parecem ser a moda vigente. Sua vida só começa a se desvencilhar da sombra do amor de infância azedado — as razões desse azedamento chegam até nós de pouco em pouco, em flashbacks de lirismo excepcional — quando ele decide comprar o OS1, anunciado como o primeiro sistema operacional com inteligência artificial. E, por maior que seja a tentação de descrever a invenção como uma Siri do futuro, essa seria uma comparação infundada, pois fica claro desde as primeiras palavras trocadas entre Theodore e seu OS, autobatizado Samantha, que esta última é uma criatura bem mais interessante do que um simples assistente.

A diferença é registrada brilhantemente assim que Samantha solta seu primeiro "Oi", em que a voz de Johansson exibe uma pequena falha tonal tipicamente humana, e continua sendo desenvolvida conforme ela e Theodore se tornam mais próximos: entre updates simpáticos e perguntas algo intromissoras, Samantha, em aprendizado empírico constante, prova ser capaz de discorrer com personalidade sobre questões filosóficas e emocionais — as quais vêm em peso, dada a situação aflitiva de Theodore e seu embate psicológico com os documentos de divórcio —, e até mesmo de fazer rir com piadas inesperadas. Fragilizado e precisando de um amigo como está — sua colega mais próxima, Aimee, vive distraída pelo trabalho e pelo marido —, Theodore deixa-se tornar amigo de Samantha, e mais tarde algo mais que isso, culminando na referida cena de sexo, a qual, esclarecendo, ocorre antes da metade da projeção. Montado o palco, o filme se lança em uma exploração sagaz, mas sempre delicada, de seu conceito maluco, apoiada no relacionamento central mas aberta a incursões de personagens secundários — e ver as diferentes reações à notícia de que Theodore está namorando uma OS constitui uma experiência emocionalmente e intelectualmente estimulante.

O mesmo pode ser dito de todo o filme, na verdade. Ciente do potencial temático da ideia, Jonze, em seu primeiro roteiro 100% original (seus trabalhos anteriores haviam partido de roteiros de Charlie Kaufman ou do livro Onde Vivem os Monstros), não falha em abrir a trama em discussões profundas e multifacetadas sobre o que se subentende naquele amor sci-fi, o que ele nos diz sobre os caminhos dessa sociedade cada vez mais tech (algo que é potencializado significativamente pela hábil idealização que Jonze e seus designers fazem do futuro não-tão-distante) — pra não falar das questões metafísicas e existenciais inerentes ao relacionamento central e ao crescimento de Samantha como personagem, as quais chegam a ter papel fundamental no conflito principal. O grande mérito de Jonze, no entanto, está em não transformar sua história numa fábula preta-e-branca, e sim se dar ao trabalho de envolver emocionalmente o espectador. Assim, mais do que enxergar Samantha como uma metáfora para isso ou aquilo, somos levados a vê-la pelo que ela é de fato: um ser complexo, único, falho e dotado de sentimentos, que merece tanta consideração quanto qualquer ser humano com um corpo. É por essas e outras que, antes de ser qualquer outra coisa (e é muitas), Ela é uma história de amor, ao mesmo tempo absurdamente tocante e aplaudivelmente inteligente ao retratar os percalços de um romance repleto destes por natureza — e, ao enfocá-lo, Jonze consegue ainda se debruçar sobre perguntas difíceis acerca da natureza do amor romântico. Falamos, afinal, de um relacionamento não-convencional se alguma vez já houve um.

Isso tudo já seria suficiente para colocar qualquer produção entre as melhores do ano. Mas eis aqui o que torna Ela um grande filme: em vez de se distanciar do enredo e conduzi-lo sobriamente como em suas colaborações com Kaufman, Jonze permite a si mesmo imbuir sua obra de poesia. Na fotografia saturada e quente, nos monólogos confessionais, nos parênteses sábios, nos acordes suntuosos e sensíveis da trilha do Arcade Fire, nas ocorrências pontuais de ironia e humor, Ela voa alto, capaz como nenhum outro filme dessa década até agora de fazer um registro maravilhosamente humano de um zeitgeist peculiar. Essa doce intoxicação sensorial e mental é, inclusive, um passo importante para Jonze, que estabelece uma marca pessoal praticamente única em Hollywood graças a seu tato para a beleza crua das coisas. O elenco, é claro, contribui fabulosamente para essa aura de ukulele audiovisual: privada de maquiagem, Amy Adams entrega uma Aimee frágil e compreensível que faz um excelente contraponto humano a Theodore, enquanto Rooney Mara é hábil na composição de uma ex-mulher geniosa e complicada, alternando entre o contexto etéreo das memórias do protagonista e a dureza do pós-término com proficiência. Fechando o elenco secundário, Chris Pratt demonstra mais uma vez ter um grande talento para alívio cômico, revelando-se ainda competente nos momentos mais graves da participação de seu personagem.

Isso tudo, lógico, pra não falar do casal de protagonistas. Se o desafio ao qual se submete Johansson é grande o suficiente, munida apenas de sua voz para transmitir uma infinidade de ideias, pensamentos e estados de espírito, o de Phoenix é ainda maior: carregando todas as cenas, com a câmera a centímetros do rosto em boa parte delas, ele dá conta não só de construir um homem comovente em suas múltiplas neuroses e dúvidas, como de estabelecer uma química sublime com uma voz praticamente imaterial. Muito graças aos dois atores, Theodore e Samantha se mostram personagens memoráveis, nos quais o espectador pode ancorar-se com gosto conforme navega pelo admirável mundo novo imaginado por Jonze. O futuro de Jonze, diga-se de passagem, é palpável, rico em sua enganosa simplicidade, assustador em alguns lugares e encantador em outros, habitado por homens e mulheres invariavelmente interessantes em suas opiniões variadas sobre questões pertinentes àquele tempo e, em termos, ao nosso; poucas vezes na memória recente um cineasta foi tão habilidoso em imergir seu público em uma realidade fictícia — muito porque o mundo alguns anos mais velho que ele constrói não é tão fictício assim. Isso, aliás, é parte do que torna a ficção científica naturalista aqui observada tão instigante: Jonze acerta em cheio todas as suas observações discretas sobre os rumos que estamos tomando, imaginando desde games simuladores de maternidade até uma espécie de Chatroulette oral para tarados(as) sem sono, em passagens que inspiram divertimento e temor, frequentemente ao mesmo tempo. Trata-se do trabalho de um verdadeiro visionário, sem a menor sombra de dúvida — só mesmo um visionário, afinal de contas, para nos fazer acompanhar com o coração na mão a história do amor entre um escritor solitário e um sistema operacional.


Classificação final:

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Resenha 17: "Jogos Vorazes: Em Chamas", de Francis Lawrence

Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson em Jogos Vorazes: Em Chamas. © Lionsgate.
The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013. Sci-fi/Drama/Aventura. 146 minutos. Direção: Francis Lawrence. Escrito por: Simon Beaufoy e Michael deBruyn. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Stanley Tucci, Philip Seymour Hoffman, Sam Claflin, Jena Malone, Lynn Cohen, Jeffrey Wright, Amanda Plummer, Willow Shields, Paula Malcomson, Donald Sutherland. Classificação indicativa: 14 anos.

Eu gostei bastante do primeiro Jogos Vorazes: embora fosse um filme falho em mais de um aspecto, era uma bem-vinda lufada de maturidade numa indústria que costuma privilegiar o entretenimento fácil até mesmo nos blockbusters "para adultos", que dirá nas aventuras juvenis. Tratava-se, porém, de um ano particularmente bom para filmes populares, e portanto Jogos Vorazes, com sua execução meio atrapalhada e sua lógica interna translúcida, acabou não se destacando tanto em meio a outros arrasa-quarteirões "sérios" como 007: Operação Skyfall e Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Tanto maior, então, é a conquista deste Jogos Vorazes: Em Chamas, que, no que tem sido um 2013 bastante frustrante, consegue retomar os temas complexos de seu antecessor e empacotá-los numa história mais fluida, mais eficaz e bem mais incendiária, saindo-se no processo como o melhor filme de franquia do ano até agora.

Parte desse sucesso se deve, sem dúvida, à troca de timoneiro: com a saída do experiente Gary Ross, a cadeira do diretor foi ocupada pelo até então pouco conhecido Francis Lawrence, que tomou a decisão correta de deixar de lado as pretensões artescas de Ross e optar por uma condução redonda e precisa. Correta porque, carregada como é de metáforas e subtexto, a trama fala por si mesma — sem necessidade, por exemplo, de uma câmera trêmula para transmitir a sensação de insegurança dos personagens. Dessa forma, quando vemos novamente Katniss Everdeen percorrer a cinzenta sordidez de seu Distrito 12 no início da projeção, a impressão que fica é a de um universo muito mais sólido, mais palpável, e consequentemente mais aterrador em sua brutalidade. Tal imersão se torna ainda mais essencial para o impacto emocional do filme conforme os eventos do primeiro ato se desenrolam, quando descobrimos que o quase-suicídio de Katniss e seu colega de competição Peeta Mellark, que determinou sua excepcional vitória dupla nos titulares Jogos Vorazes ao final do primeiro filme, tem sido visto por alguns dos cidadãos oprimidos da Panem como um ato de rebeldia, e uma prova de que a ideia de se levantar contra aquele sistema fascista não é assim tão absurda.

Tida como responsável por esse clima tenso, Katniss, que no fim das contas só quer garantir a sobrevivência da sua família e amigos, recebe um ultimato do sinistro Presidente Snow: ao longo dos 12 dias da iminente Turnê da Vitória, ela e seu falso namorado Peeta devem convencer a nação de que sua firula nos Jogos não passou de um ato de amor desesperado, nada que tivesse o intuito de motivar rebeliões; caso contrário, todos que ama irão pagar o pato. A heroína consente, mas não cumpre o que prometeu: forçada a encarar a realidade severa dos demais Distritos do país, ela ora fala mais do que devia e atiça multidões, ora não convence com seu teatro artificial de amor e cortesia. Nem mesmo o pedido de casamento feito por Peeta, um fantoche bem mais carismático que ela, acalma os espíritos rebeldes. Ao voltar da viagem, Katniss não vê outra opção senão levar os seus lá para dentro da floresta e torcer para não ser encontrada mais. Antes, porém, que ela possa convencer o amigo de infância Gale a deixar o motim para os outros e ir com ela, o Presidente dá um jeito de arrastá-la para mais uma edição dos Jogos — por ocasião do Massacre Quartenário, uma edição especial que ocorre a cada 25 anos. A regra nova da vez é que os Tributos serão escolhidos a partir do grupo já existente de vencedores.

O filme não tem pressa alguma em chegar nesse ponto da narrativa, permitindo que as tangentes lógicas da situação dos personagens se desenvolvam de maneira sempre impactante: se o arco central pertence indubitavelmente a Katniss, imobilizada pelo seu instinto de sobrevivência embora saiba o quão revoltante é o status quo, a trama não se furta em abarcar uma série de outros conflitos, da angústia silenciosa de Peeta frente ao fato de seu relacionamento com a protagonista ser puro fingimento à fragilidade das colunas midiáticas nas quais se sustenta o sistema de domínio da Capital — de modo que quando a reedição dos Jogos finalmente se torna assunto principal do enredo, há muito mais em jogo para todos os envolvidos do que a sobrevivência imediata, proporcionando ao espectador uma imersão profunda no universo inquieto da história. Com isso, o filme consegue evitar o que poderia ter sido uma reprise do original, introduzindo, de quebra, uma série de Tributos mais interessantes e memoráveis na forma dos vencedores das competições anteriores, em sua maioria adultos já formados ou até mesmo idosos, todos profundamente insatisfeitos com sua condição de reentrantes.

É então que Em Chamas verdadeiramente pega fogo: entre tributos insurretos e levantes populares, o filme, construído desde os primeiros minutos como uma arrojada bomba-relógio, assume de vez um espírito revolucionário que não é mais largado até o último instante da projeção. Com o aumento orçamentário robusto, Lawrence permite-se idealizar uma cenografia bem mais vistosa e sequências de ação mais empolgantes, sem nunca deixar de empregar a riqueza visual e técnica do filme em favor da história. A praticamente todos os personagens, novos ou velhos, é dada a oportunidade de crescer e aparecer, permitindo que todos os componentes do elenco fabuloso mostrem a que vieram. Calouros como Sam Claflin e Jena Malone são instantaneamente magnéticos, e nomes de peso como Elizabeth Banks e Stanley Tucci revelam-se capazes de levar seus personagens além da caricatura a que antes eram limitados; Philip Seymour Hoffman se sai impecável como de costume no papel do ambíguo idealizador do evento, emprestando, junto a veteranos como Jeffrey Wright e Amanda Plummer, uma gravitas de valor incalculável ao todo. Os já antes elogiáveis Woody Harrelson e Josh Hutcherson entregam performances ainda mais realizadas — no caso de Hutcherson, a composição é especialmente fascinante por evidenciar o crescimento deste como ator desde que despontou. Até mesmo Liam Hemsworth faz o que pode, saindo-se razoavelmente bem apesar de ser, sem dúvida, o mais limitado ator em cena. Todo esse esforço conjunto contribui para que este seja o filme a estabelecer Panem como um mundo tridimensional e inebriante, tornando ainda mais contundentes as reflexões que o longa propõe.

Aí, por sinal, encontra-se a força principal não só de Em Chamas, mas também, ao que parece, de toda esta surpreendente cinessérie: aqui, jamais o que se vê na tela é liso; toda interação, em grande ou pequena escala, dá margem para diversas interpretações em torno dos temas onipresentes de opressão sistemática, alienação, sadismo cultural e desigualdade. O que não significa que o filme não tenha foco — neste segundo capítulo, a jornada pessoal de Katniss, sempre à vista por mais intricado que seja seu entorno, traz à tona duas questões centrais — os deveres pessoais nas revoluções e o papel da mídia e da cultura popular nas relações de poder — que Lawrence, juntamente com os roteiristas Simon Beaufoy e Michael Arndt (ambos vencedores do Oscar), dá conta de explorar para efeito máximo, traçando muitos paralelos oportunos com a sociedade humana contemporânea. O resultado é que o embate entre Katniss e o Presidente Snow, traduzido perfeitamente nas atuações arrebatadoras de Jennifer Lawrence e Donald Sutherland, vai muito além de um conflito "mocinha vs. vilão", e acaba por ser um dos confrontos mais instigantes do cinema popular recente. Em Chamas, é, portanto, uma "aventura para jovens" que supera qualquer estigma, o que fica especialmente claro ao analisarmos, por exemplo, o relativamente desinteressante triângulo amoroso central, em que todos os componentes têm conflitos e motivações que extrapolam suas buscas românticas. Sim, é uma produção de inegáveis pretensões monetárias — mas, num meio em que a Saga Crepúsculo é considerada um modelo de sucesso, já é bem mais do que estamos acostumados a antecipar. Que venha logo A Esperança.


Classificação final:

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Resenhas back-to-back: 15/16

Eu assisti a mais ou menos nove filmes nos últimos 6 dias, e pretendo escrever sobre todos eles. Essa situação exige medidas drásticas, e o que eu decidi fazer foi inaugurar um novo bloco batizado de "Resenhas back-to-back", em que escreverei sobre dois filmes com uma cajadada só em textos mais curtos que o normal.

Os escolhidos de hoje não foram assistidos em sequência (o filme que escrevi entre os dois será discutido isoladamente em outra inauguração de bloco mais tarde), mas são aqueles que inspiraram os textos mais curtos. Uma já saiu de cartaz faz tempo e a outra acabou de entrar, porém eu exorto-vos a desconsiderar a diferença de tempo.

De Pernas pro Ar 2, de Roberto Santucci

Brasil, 2012. Comédia/Romance. 98 min. Direção: Roberto Santucci. Escrito por: Mariza Leão, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães e Marcelo Saback. Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Maria Paula, Eriberto Leão, Denise Weinberg, Cristina Pereira, Christine Fernandes, Tatá Werneck, Luis Miranda. Classificação indicativa: 14 anos.

Me ocorreu há algum tempo que eu nunca escrevi nada sobre um filme nacional nesse blog, provavelmente porque eu raramente assisto a produções brasileiras (não há um motivo específico para isso, antes que você pergunte). Por circunstância, acabei indo ver essa semana a continuação justamente daquele que, se bem me lembro, foi o último nacional que assisti. E, se De Pernas pro Ar chegava a ser embaraçoso em sua ineptidão, De Pernas pro Ar 2 acabou se revelando uma grata surpresa. Não tão bom a ponto de redimir o primeiro, mas aí já é pedir demais. Pra começar, o orçamento do filme teve um bem-vindo upgrade, eliminando os erros grosseiros de produção que tornavam o primeiro impossível de levar a sério. Em segundo lugar, os realizadores perceberam que enquadrar mulheres conversando sobre vibradores não é suficiente para dar interesse feminino a um flime, e investiram em uma trama que pode agradar tanto a, erm, "mulheres modernas" quanto ao resto do público em geral. E, se é inegável a confusão provocada por ambientar metade da ação em um spa isolado cheio de "figuras" e a outra metade em plena Nova York (o primeiro ato parece até existir apenas para que a projeção alcance 90 minutos), pelo menos o filme é tonalmente sólido.

Ainda assim, a saga de Alice tentando inicialmente relaxar em um spa para depois ir abrir uma filial da Sexy Delícia na Big Apple sofre de muitos problemas herdados de seu antecessor: o furor em torno da rede de sex shops operada pela protagonista continua não convencendo, e a tentativa de imitar comédias americanas se mantém ruidosa, inclusive nos momentos sentimentais envolvendo Alice e seu filho. E os roteiristas ainda acharam uma boa ideia rechear o filme de momentos-anedota — a saber, cenas em que os personagens comportam-se irrealisticamente pelo bem do remate imediato da piada. Mas essa falta de visão de jogo meio onipresente é compensada por uma boa quantidade de sacadas inteligentes, como a aparição pontual, em dois momentos distintos, de uma gravação de Alice quando criança, a qual se mostra reveladora sobre a personagem e sua família. Além disso, é dado mais material à divertida empregada Rosa, e a sua personalidade humilde, se ocasionalmente provocadora de piadas forçadas ("Do you wanna fuck?"), acaba sendo um contraponto saudável à descarada propaganda turística de Nova York que o resto do filme faz — algo que fica acentuado na hilária montagem musical que intercala a fogosa Marcela saindo de lojas de grife com sacolas cheias a Rosa maravilhando-se ao vasculhar as prateleiras de um supermercado.

Mas a melhor coisa a respeito desse De Pernas pro Ar 2 reside no quanto os realizadores parecem conhecer seu público, presenteando-o com referências sutis e detalhes que ajudam a criar um universo cômico interno — repare, por exemplo, no uso econômico do bizarro funk que se tornou música-tema do primeiro filme, ou no esforço em criar uma mitologia em torno do coelho de pelúcia. Também é notável a participação de Rodrigo Sant'Anna, em que os realizadores resistem à tentação de incluir uma referência óbvia a Valéria Vasques e optam por uma alusão sutil no finzinho da participação do comediante. Mas é claro que nada dessa auto-consciência seria suficiente para redimir a historinha medíocre não fosse o elenco, e a boa notícia é que os atores se mostram bem mais afinados do que no primeiro filme — se Ingrid Guimarães precisava carregar o primeiro nas costas e não conseguia, nessa continuação todos os seus colegas de elenco contribuem para o produto final, inclusive a antes risível Maria Paula, que, surpreendentemente, consegue convencer a maior parte do tempo na pele de Marcela. Avaliando De Pernas pro Ar 2 friamente, o filme não merece mais elogios do que uma romcom americana média, mas graças à sintonia dos atores esse conhecimento é disfarçado com sucesso. E já é ótimo que o enfraquecido gênero da comédia nacional esteja chegando a tanto.

Classificação final:

Homens de Preto 3, de Barry Sonnenfeld

Men in Black 3, EUA, 2012. Ação/Comédia/Sci-fi. 106 min. Direção: Barry Sonnenfeld. Escrito por: Etan Cohen. Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Jemaine Clement, Emma Thompson, Michael Stuhlbarg, Mike Colter, Bill Hader, David Rasche, Alice Eve. Classificação indicativa: 10 anos.

Se você, como eu, não está familiarizado com o universo dos filmes de Barry Sonnenfeld, Homens de Preto 3 pode ser uma boa introdução, já que, desde as cenas iniciais, o roteirista Etan Cohen faz o possível para que nenhum conceito pertinente ao universo maluco dos MIB fique confuso na mente dos não-iniciados. Com o jeitão de um filme-pipoca descompromissado, esse é um daqueles filmes que chegam perto de duas horas e parecem durar 30 minutos, tamanho o seu empenho em entreter uniformemente. E, de quebra, algumas passagens pisam fora da zona de conforto e tornam o filme mais sensível e intelectualmente inspirado que a maioria dos blockbusters. Tomando como ponto de partida dramático a indignação do Agente J com o jeito taciturno e ranzinza de Tommy Lee... err, Agente K, o roteiro começa cedo a se dedicar, ainda que em segundo plano, a explorar a relação entre os dois. Assim, não poderia ser mais conveniente o enredo de viagem no tempo, em que J precisa voltar ao ano de 1969 para impedir que Boris, o Animal mate K e provoque, 40 anos depois, um massivo e incombatível ataque dos Bogloditas à Terra. (LSD much?)

Isso porque, no passado, J conhece a versão menos-de-30 de K, e a interação entre os dois é inspirada, tanto graças ao roteiro quanto à performance de Josh Brolin (detalhes logo mais). Também é divertido ver o quartel-general dos MIB coberto de apetrechos sessentistas — uma prova do senso de humor da produção e dos diretores de arte, e que condiz perfeitamente com a veia cômica quase surrealista estabelecida pelo filme, e que, imagino, sempre foi uma das marcas registradas da série de Sonnenfeld. O segundo ato inteiro é uma brincadeira com o período, na verdade, com piadas que vão de Andy Warhol ao racismo da polícia. Mas, sight gags à parte, nós ainda estamos falando de viagens no tempo, e é irrepreensível a forma como o filme lida com o conceito, incitando dor de cabeça mais de uma vez sem abrir buracos na lógica e aproveitando a deixa para incluir observações sobre linhas do tempo alternativas através do memorável personagem de Michael Stuhlbarg, o arcaniano Griffin. Melhor que a encomenda para o filme 3 de uma cinessérie de sessão da tarde.

Não que Homens de Preto 3 seja perfeito, ou sequer perto disso: o diretor muitas vezes falha em estabelecer equilíbrio entre os momentos propositalmente asquerosos e os diálogos de fogo rápido, e tirando uma ou outra piada visual mais inspirada (como aquela logo no começo que envolve Lady Gaga e dura uns dois segundos), o filme não é lá muito inventivo visualmente. Mas o que se poderia esperar de um filme desses está lá, e em profusão: a maquiagem protética é impressionante, o ritmo é perfeito para um filme com o propósito de entreter, e o notável elenco se compromete ao máximo. O que me leva, claro, a Josh Brolin. Se é possível argumentar que Tommy Lee Jones faz o papel dele mesmo, então Brolin praticamente interpreta Jones — e não poderia ser mais bem-sucedido na tarefa, simulando a cadência da voz do ator e seus maneirismos sutis com perfeição absoluta, e chegando por vezes a nos fazer esquecer que é ele e não Jones que aparece na tela. Mas sua atuação não se restringe à imitação, acrescentando também uma inédita camada de leveza e otimismo ao agente K que enriquece a já delicada (e por vezes tocante) análise que o filme faz da relação entre ele e J. Logo, quando Jones volta a surgir na tela no desfecho, passamos, assim como J, a ver seu personagem com outros olhos, o que, no caso, é um feito e tanto. E, como a aparição final de Griffin confirma, Homens de Preto 3 acaba demonstrando ter conhecimento mais que suficiente da própria proposta, e compondo um argumento convincente para a continuação da franquia.

Classificação final:

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Resenha 14: "Frankenweenie", de Tim Burton

Sparky (Frank Welker) em Frankenweenie. © Disney.
Frankenweenie, EUA, 2012. Animação/Família/Sci-fi/Dramédia. 87 minutos. Direção: Tim Burton. Escrito por: John August. Elenco: Charlie Tahan, Catherine O'Hara, Martin Short, Winona Ryder, Martin Landau, Atticus Shaffer, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell, Tom Kenny. Classificação indicativa: Livre.

Tim Burton é um perfeccionista. É sabido que poucos diretores hoje se entregam tanto ao seu ofício e com tanto preciosismo na construção das histórias, dos personagens e dos sets. Como resultado, seus projetos, bicos de produtor à parte, demoram muito tempo para chegar às telas, e são comuns intervalos de dois anos ou mais entre seus filmes. E se estes nem sempre são obras-primas, ainda há que se admitir que esse diretor amado por tantos e desprezado por tantos outros ainda é, no mínimo, um apaixonado pelo que faz. Assim, seria de se esperar que uma obra como Frankenweenie, possivelmente o projeto mais íntimo e pessoal de Burton, se traduzisse em algo inesquecível, nem que apenas pela fascinação de ter um vislumbre da experiência do cineasta. Ao invés disso, pasme, essa terceira animação em stop-motion do ano se revela a mais decepcionantemente medíocre, tanto visual como narrativamente.

Por onde começar? O mote de Frankenweenie é interessante, sugerindo a possibilidade de enfocar as discussões complexas do Frankenstein de Mary Shelley e do filme de James Whale do ponto de vista de uma criança. Em vez disso, o filme nunca parece almejar ser mais do que um spoof desajeitado de filmes de terror — isso porque, apesar de clara a intenção de Burton de contar a história de um garoto e seu cachorro, o roteiro se perde em referências óbvias e algumas não tão óbvias a clássicos que já cansaram de ser parodiados, referências que parecem ter sido incluídas na história simplesmente porque os realizadores pensaram "Por que não?". No geral isso seria perdoável, e até condizente com a atmosfera lúgubre do filme, mas Frankenweenie também parece padecer de excesso de confiança, nunca se esforçando em criar uma história convincente ou mesmo plausível para permear a trajetória pessoal dos dois protagonistas e as dezenas de alusões que a acompanham.

Basta dar um mínimo de processamento aos fatos que alavancam o principal conflito da história para perceber a falta de cuidado (ou seria preguiça?) do roteirista John August: tudo bem que a ideia de um garoto ressuscitando o seu cachorro já jogue a maioria dos obstáculos lógicos pela janela, mas nem por isso é ignorável a unidimensionalidade de crianças que parecem estar dispostas a qualquer coisa, por mais perigosa que seja, pelo que uma delas define como "um troféu grande", ou a função ornamental que cumprem pais que lotam um auditório para derrubar um professor porque não são capazes de entender a ciência (reparem a referência cansada a Plutão). E o que dizer da tensão ridícula criada pela insuportável regra tácita de que os pais não podem saber de nada, por mais dedicados e compreensíveis que sejam?

Todos esses empecilhos ao funcionamento narrativo do filme, juntamente com uma moral simplista, clichês distraidores e personagens secundários que servem apenas como enfeite (ao contrário do que geralmente se vê na filmografia de Burton), parecem apontar que o filme se contenta em agradar apenas às crianças menores — e falha até mesmo aí, desperdiçando uma excelente oportunidade de dar uma lição sobre "viver e deixar morrer" e servindo um happy ending que só não é mais açucarado por acontecer rápido. E se Burton dedica-se um bom tempo a construir uma simpática lógica interna, qualquer traço de coerência é atropelado no clímax, que vê diversos bichinhos de estimação serem ressuscitados apenas para se transformar em monstrengos agressivos, anfíbios humanoides semelhantes aos Gremlins e até mesmo répteis gigantes (!) sem maiores explicações (e chega até a ser ofensiva a decisão de fazer o garoto asiático despertar uma criatura semelhante à Gamera).

Mas a pior constatação que se tem ao assistir Frankenweenie diz respeito ao aspecto visual do filme: por mais duro que seja admitir, a idiossincrasia visual dos personagens de Burton está ficando batida. É só comparar esta com as outras animações em stop-motion do ano (a saber, ParaNorman e Piratas Pirados!), e fica impossível ignorar que esta é aquela em que os personagens tem menos expressão, surgindo quase sempre como versões de massinha da Kristen Stewart, e a existência de personagens de design excêntrico como a Garota Esquisita parece ter a função única de nos distrair desse defeito. É pena, considerando a meticulosidade que Burton dá, como sempre, aos cenários e à direção de arte em geral — além do que, a fotografia em preto-e-branco dá indícios iniciais de uma abordagem não-convencional, o que seria mais que bem-vindo no mundo saturado das animações infantis e condiria com produções em stop-motion de anos recentes, e Burton consegue manter a produção em um patamar saudável de peculiaridade durante os 87 minutos de duração.

Parece até que a minha intenção é destruir o filme, mas na verdade Frankenweenie, no geral, não é ruim. Longe disso. Trata-se de um esforço criativo nobre, com um centro emocional eficaz e sincero, que tem em Victor e seu cachorro Sparky duas das melhores criações recentes do diretor. Fãs de filmes de terror vintage serão facilmente encantados pelas inúmeras referências, assim como os próprios fãs da filmografia de Burton, a qual também é recauchutada extensivamente nas set pieces. O grande problema aqui é uma espécie de confiança excessiva por parte dos realizadores, que, se capazes de criar momentos singelos como aquele em que Sparky finalmente encontra paz ao descansar sobre seu túmulo, também não veem problema em abraçar clichês onipresentes como o do interesse romântico canino. Frankenweenie poderia ser muito pior. Mas também poderia ser muito melhor — e, considerando o potencial em questão, isso é o que marca mais.


Classificação final:

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Resenha 13: "Cinco Anos de Noivado", de Nicholas Stoller

Emily Blunt e Jason Segel em Cinco Anos de Noivado. © Universal.
The Five-Year Engagement, EUA, 2012. Romance/Dramédia. 124 minutos. Direção: Nicholas Stoller. Escrito por: Jason Segel e Nicholas Stoller. Elenco: Jason Segel, Emily Blunt, Chris Pratt, Alison Brie, Rhys Ifans, Jacki Weaver, Jim Piddock, David Paymer, Mimi Kennedy, Mindy Kaling, Kevin Hart, Brian Posehn, Chris Parnell, Lauren Weedman, Tracee Chimo, Dakota Johnson, Randall Park. Classificação indicativa: A definir. R nos EUA.

(Ainda sem classificação indicativa no Brasil, mas, a julgar pelo conteúdo, será provavelmente 16 ou 18 anos. Aciono o A.S.I.R.)

Comédias românticas são um gênero complicado. Criticadas pela grande maioria delas se render facilmente aos clichês e resoluções fáceis, elas quase sempre têm que mirar o extremo oposto e desenvolver suas histórias de maneira tão crua e realista, sempre que cá e lá se esforçam para quebrar os preceitos batidos do gênero e fazer um relato mais maduro e sincero dos relacionamentos que abordam, que acabam por provocar a indiferença do espectador simplesmente pelo desprezo que sentimos pelos seus personagens, com suas falhas de caráter. Ora, um dos princípios incontornáveis da comédia romântica é justamente que precisamos conseguir torcer pelos personagens para nos importar com o que se sucede a eles. Assim, uma romcom só acerta o ponto quando consegue nos apresentar a personagens atraentes e desenhar seus arcos sem abrir mão da franqueza, o que, infelizmente, rareia. Qual não foi minha surpresa ao perceber, então, na segunda metade de Cinco Anos de Noivado, que eu não só torcia pelo final feliz de seus protagonistas, como ainda era capaz de sentir a dor e a felicidade intercaladas destes.

Claro, essa dramédia escrita pela mesma dupla de roteiristas de Os Muppets (haja versatilidade) vem do forno do produtor Judd Apatow (dê um Google), o que ajuda bastante. Mas Cinco Anos... vai além do escracho sofisticado de trabalhos como Missão Madrinha de Casamento e acaba se saindo uma das obras mais maduras do panteão de Apatow. O enredo já diz tudo: após ficarem noivos com apenas um ano de namoro, Tom (Segel) e Violet (Blunt) enfrentam uma série de barreiras de todos os tipos que os forçam a adiar cada vez mais o seu casamento, ao mesmo tempo em que se descobrem cada vez mais infelizes um com o outro. Poderia facilmente ser um melodrama pesado, mas é (no papel) uma comédia romântica. O diferencial aqui está na inteligência do roteiro, que, assim como no relativamente recente iraniano A Separação, aumenta a pressão sobre seus personagens gradativamente e extrai seus principais conflitos e curvas fechadas de decisões compreensíveis e até mesmo nobres destes. Dessa forma, Cinco Anos... se torna o estudo de um relacionamento complexo entre duas pessoas bem-intencionadas, e, graças à estruturação inteligente de seus personagens secundários, acaba sendo também, de maneira geral, uma desconstrução dos relacionamentos típicos de produções do gênero.

E a melhor parte dessa desconstrução é que o diretor, produtor e roteirista Stoller a conduz tendo como recurso constante algo que raramente se vê em produções como esta: sutileza. Assim, inicialmente nós acreditamos que o breve e errôneo envolvimento entre a irmã cética de Violet e o melhor amigo bobão de Tom será apenas uma dessas "decisões erradas feitas por pessoas embriagadas" com aparição pontual e cômica, mas Stoller nos surpreende ao jogar uma reviravolta sobre os dois coadjuvantes que os faz assumir a condição de um contraponto amargo para o relacionamento de Tom e Violet. O mesmo vale para os pais da noiva: se a maioria das comédias não resistiria a transformá-los em típicos "sogros divorciados", aqui eles são vistos de maneira realista, como a mãe de Violet confirma ao explicar para a filha que foi, na verdade, feliz em seu casamento. E reparem como a namorada troféu do pai de Violet dá lugar a outra nos minutos finais da projeção — um detalhe que confere honestidade ao clichê do ex-marido tarado.

Além de tudo, Stoller lança mão de uma série de simbolismos (isso mesmo: simbolismos!) para colorir a relação de Tom e Violet, indo do mais simples (percebam como a analogia dos donuts é usada para alterar repentinamente a imagem que temos de Tom) ao mais trabalhado (os relacionamentos pós-término em que os protagonistas se aventuram são repletos de detalhes sutis que mostram o quanto os dois erraram em se separar). O cartão-título é um dos mais brilhantes que já vi, sobrepondo a um pedido de casamento regado a fogos de artifício e um beijo hollywoodiano o sardônico letreiro "CINCO ANOS DE NOIVADO". E o que dizer da morte progressiva dos avós de Violet e Tom, que poderia tanto ser apenas um acréscimo de humor negro quanto conter uma leitura profunda sobre a chegada da idade adulta e o efeito que esta tem sobre o relacionamento dos dois?

É claro que toda essa ambição temática poderia comprometer o andamento narrativo do filme (ainda é, afinal, uma comédia romântica), e se por um lado a montagem acerta nas transições sofisticadas que destilam cada cena ao seu conteúdo essencial, por outro é inegável que uns quinze minutos a menos (são mais de duas horas) aumentariam o impacto do filme como um todo (apesar de me ocorrer a hipótese de a longa duração do filme ser perfeitamente intencional). Assim, Cinco Anos... acaba pecando por enfiar conteúdo demais em um só roteiro, e sou forçado a admitir que isso deixará muitas pessoas inquietas ou mesmo sonolentas, especialmente no terceiro ato. Ainda assim, eu sou muito mais um filme ambicioso com probleminhas de ritmo do que tantas outras romcoms que se preocupam apenas em divertir sem fazer pensar. Talvez seja por isso que essa produção teve sucesso apenas mediano: ela é boa demais, profunda demais para uma comédia romântica, a ponto de o humor às vezes parecer apenas um recurso para tornar o filme menos sério — o resultado disso é que cenas memoráveis como a discussão histérica entre o Elmo e o Come-Come (veja e entenderá) acabam ficando lado a lado com momentos dispensáveis como o acidente de cozinha sofrido pela Chef Sally.

Apesar de tudo, o filme ainda diverte bastante graças ao talento cômico dos atores — e, mais importante, consegue nos fazer cruzar os dedos pelo final feliz de Tom e Violet. E quando este finalmente chega, é de forma tão singela e emocionalmente honesta que nem de longe trai a melancolia que o resto do filme atingiu, apesar de ainda assim ser um momento absolutamente feliz. É uma representação da conquista do filme como um todo — e assim como Tom e Violet relembram ao longo dos anos o dia em que se conheceram, esse é um filme ao qual me vejo retornando muitas vezes. Não me lembro de ter me sentido assim com uma comédia romântica antes.

Classificação final:

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Resenha 12: "Toda Forma de Amor", de Mike Mills

Ewan McGregor, Mélanie Laurent e Cosmo em Toda Forma de Amor. © Focus Filmes.
Beginners, EUA, 2010. Romance/Dramédia. 105 minutos. Direção: Mike Mills. Escrito por: Mike Mills. Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic, Kai Lennox, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Cosmo. Classificação indicativa: 12 anos.

Toda Forma de Amor é uma gema. Não consigo pensar em um termo melhor para resumir a complexa simplicidade desse trabalho semibiográfico de Mike Mills, que lida com o amor em todas as suas formas com singeleza e originalidade estética ao mesmo tempo em que dá a seus atores um veículo e tanto para seus talentos — tanto é que o trabalho delicado de Christopher Plummer deu ao filme a sua única indicação (e vitória) no Oscar desse ano.

À época do seu lançamento unicamente em DVD no Brasil, Toda Forma de Amor era marquetado como um olhar sobre o "amor moderno", e, realmente, é difícil imaginar um filme mais apropriado, tanto estética quanto narrativamente, para o rótulo. Seguindo três momentos distintos da vida do protagonista Oliver — um, a sua infância nos anos 70, e os outros dois no passado recente —, a história narra o progresso do relacionamento entre ele e Anna, uma atriz francesa de passagem pela cidade onde ele mora, dois meses após a morte de seu pai Hal, e ainda se ocupa de recontar os últimos anos de vida deste ao lado do filho e também de seu jovem namorado — Hal é gay, mas só criou forças para sair do armário após a morte de sua esposa, e a essa altura ele já passava dos 70.

Não vale a pena dar mais detalhes sobre o enredo porque não há, exatamente, um enredo. Nós vemos Oliver e Anna descobrindo mais um sobre o outro em confissões lacrimosas sobre seus passados familiares, e assim se apaixonando; vemos Hal conseguindo convencer a todos de que está feliz apesar da descoberta de um câncer, enquanto Oliver observa desconfiado; vemos a mãe de Oliver tocando uma rotina que procura acrescer de felicidade para consolar o filho pela ausência de seu pai. Em todas essas tramas colineares, a dinâmica entre os personagens é assombrosa; em nenhum momento nós pensamos em nos lembrar de que aquelas pessoas não existem realmente. O relacionamento entre Oliver e Anna é por certo um dos mais verossímeis e orgânicos dos últimos anos no cinema, e isso se deve muito à química espetacular entre Ewan McGregor e Mélanie Laurent (mais sobre o elenco em cinco minutos).

E essa verossimilhança enriquece tematicamente Toda Forma de Amor, já que a proposta do filme é, primeiramente, retratar um relacionamento moderno e estudá-lo silenciosamente através de um panorama dos outros relacionamentos importantes da vida do protagonista. Dirigindo seu segundo roteiro de longa, Mills dá ao filme uma qualidade estética única (e eficiente para a história) ao usar fotos de arquivo e o voiceover de McGregor para estabelecer épocas e personagens. Ressaltando aspectos específicos de cada momento histórico de que fala — o presidente, a moda, a noção de beleza —, o filme traça um paralelo humano entre o presente e o passado, o que acrescenta mais um alicerce à ponte construída entre os diversos momentos da vida de Oliver. Quando se soma isso à astúcia e ao realismo da narrativa no seu belo painel dos amores do século 21, o resultado é uma produção verdadeiramente "moderna", tanto em sua temática quanto em sua abordagem.

Por trás dessa camada de chantily presente na fofura persistente (e bem-vinda) de seus protagonistas e do cãozinho Arthur ("interpretado" pelo jack russel Cosmo, que rivalizou com o Uggie de O Artista como cachorro-revelação de 2011), porém, esconde-se um profundo apuro psicológico por parte do realizador. O filme é, em segundo plano, um estudo de personagem de Oliver, e isso fica evidente na forma como as suas tramas são estruturadas — a narração sincera e nem um pouco expositória deste parece sugerir que ele enxerga o início do relacionamento com Anna com mais nostalgia e o falecimento do pai com relativa frieza, e é também acertada a decisão de não empregar o recurso durante as cenas de Oliver com a mãe, já que estas são momentos íntimos do protagonista, de que ele parece apenas se lembrar em segredo. O insight fornecido pelas "falas" de Arthur (vistas através de legendas) é providencial, mantendo-se condizente com a possível mentalidade de um cachorro e ao mesmo tempo servindo como espelho para os pensamentos do próprio Oliver (dizem, é bom lembrar, que você é o que o seu cachorro é).

O que me leva, é claro, ao elenco. Se o texto do filme explora com delicadeza e irretocável sinceridade os romances contemporâneos e seus desdobramentos, é preciso dar crédito aos atores por criarem personagens que surgem tão realistas a ponto de parecerem, de serem pessoas reais — é fácil acreditar, por exemplo, que Mary Page Keller e Keegan Boos são realmente mãe e filho, ou que Goran Visnjic está mesmo perdido de amores por Christopher Plummer. McGregor é confiável como sempre, expressando em seus olhares e expressões tudo aquilo que Oliver refreia em suas palavras, e o "apoio" de Laurent é formidável; sua atuação é tão rica e honesta que aparenta não ser, já que tudo o que vemos na tela é uma pessoa real e não uma atriz (OK, a personagem dela é uma atriz, mas você entende o que eu quero dizer). O elenco menor é competente, transmitindo a sensação de que o filme é povoado por pessoas sendo elas mesmas. Quanto a Plummer, só posso dizer que ele mereceu ter sido aplaudido de pé no Oscar.

O filme, na verdade, merecia mais indicações ao prêmio: o roteiro perspicaz de Mike Mills e a edição estilosa de Olivier Bugge Coutté eram também merecedores de atenção. Bem-sucedido no Oscar ou não, porém, Toda Forma de Amor merece ser visto. É um daqueles raros filmes em que a "suspensão da descrença" do espectador não é testada, não sendo sequer, na verdade, necessária: o grande mérito de Mills e seu elenco, aqui, é que tudo o que vemos na tela parece real em alguma medida. Até mesmo um cachorro falante.


Classificação final:
Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

sábado, 17 de novembro de 2012

Resenha 11: "Um Homem Sério", de Joel e Ethan Coen

Michael Stuhlbarg e Sari Lennick em Um Homem Sério. © Focus Filmes.
A Serious Man, EUA, 2009. Dramédia. 106 minutos. Direção: Joel e Ethan Coen. Escrito por: Joel e Ethan Coen. Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Peter Breitmayer, Amy Landecker, David Kang, Adam Arkin. Classificação indicativa: 16 anos.

(Ok, esse filme não era recomendado para menores de 16 anos. Eu aciono o Alerta de Semi-Ilicitude da Resenha ou A.S.I.R.)

Os irmãos Coen são parte de uma longa lista de auteurs contemporâneos cujos filmes ainda são quase inexplorados pelo que vos fala. O primeiro contato que tive com a obra dos dois foi, previsivelmente, com Bravura Indômita, ironicamente o filme mais "normal" deles segundo a crítica. O segundo foi com algumas cenas soltas de Queime Depois de Ler, e já aí era possível verificar a viés dos dois para o humor ácido e observacional. Agora, com este Um Homem Sério, lançado em 2010 no Brasil, eu provavelmente tive a primeira experiência genuinamente "coeniana" de, espero, várias outras. (Fargo e Arizona Nunca Mais já estão na minha watchlist.)

Um dos trabalhos mais pessoais dos Coen, me parece, esse filme tem seu primeiro — e talvez mais importante — mérito narrativo no fato de conseguir integrar a cultura judaica perfeitamente à história sem torná-la incompreensível para aqueles não familiares com ela. Até mesmo vocábulos hebraicos como dybbuk e get são completamente inteligíveis graças aos contextos criados. Além disso, o desajeito dos goyim (não-judeus) frente aos costumes e palavras do protagonista e seus correligionários é uma fonte confiável de humor durante toda a produção.

Na verdade, é admirável a forma como os diretores/roteiristas conseguem extrair comédia de uma situação tão desesperadora quanto aquela em que colocam Larry Gopnik, o titular homem sério: pressionado pela esposa/inquilina a realizar um divórcio cerimonial para que ela possa se casar com outro homem, o qual, apesar de responsável pela tragédia familiar, insiste em manter uma postura cordial e amigável com ele, o protagonista é forçado a aguentar ainda a inércia de seu irmão Arthur, que dorme no sofá da sala e passa todo o seu tempo trabalhando em um tal de "mapa da probabilidade do universo" que usa para jogar e fazer apostas; além disso, ele é informado de que um anônimo tem escrito cartas negativas a seu respeito para a diretoria da escola onde é professor, e um aluno lhe oferece uma grande soma em dinheiro para que altere uma nota baixa.

Empregando um ritmo deliberadamente lento que serve para mostrar a insatisfação crescente do protagonista com sua vida, os Coen usam o seu humor peculiar para acentuar a repetitividade asfixiante da rotina dos Gopnik, desde o tio que passa horas a fio no banheiro, sempre a anunciar que "vou sair em um minuto", à filha mais velha que não passa um dia sem explicar que pretende ir a uma casa noturna hoje à noite. Mas, se o humor, as cenas iniciais e a ótima recriação de época servem mais para situar os personagens do filme, o foco principal dos realizadores é mesmo a sua ambiciosa temática, que lida com o homem e a religião, a dúvida sobre a existência e as motivações de Deus, e a necessidade humana de respostas que nem sempre chegam. Transformando Larry num verdadeiro Jó ao longo do filme, e acompanhando a sua indignação crescente com os obstáculos que Hashem (a.k.a. Deus) põe em seu caminho enquanto ele tenta se manter "um homem sério" (e é impressionante a forma como Michael Stuhlbarg dá vida ao personagem, mantendo-o sempre verossímil, e não caricato, em sua angústia), o filme lança mão de antipatias sem justificativa, mortes repentinas e rabinos inúteis para convencer o espectador de que Larry está correto em seu desespero crescente, algo de que nós não duvidamos nem por um segundo. E diz muito a decepção de Larry por estar naquela situação, aparentemente, por não ter feito nada (algo que fica bastante explícito no diálogo entre ele e o representante de um tal Clube de Discos Columbian).

É curiosa, ainda, a decisão dos Coen de, a partir de certo momento, dividir o filme em três partes lineares correspondentes aos rabinos que Larry visita, já que cada uma dessas partes acaba funcionando como uma parábola em função do conjunto. (Na verdade, em dois momentos do filme, um deles logo nos minutos inciais, nós testemunhamos parábolas sem qualquer relação com o resto da história que aumentam a confusão do expectador para equipará-lo a Larry, e, paradoxalmente, reforçam a ideia central do filme de que algumas perguntas não podem ser respondidas, em uma metáfora metalinguística brilhante de que só me dei conta agora.)

A ambição temática de Um Homem Sério tem seu impacto sobre o espectador aumentado graças a competência narrativa do filme, que, além de contar com um elenco de atores pouco afamados que parecem ter nascido para os papéis — uma decisão louvável dos irmãos, já que eles poderiam conseguir as estrelas que quisessem para quaisquer de seus projetos —, é capaz de envolver o espectador emocionalmente graças à história paralela do desajeitado filho de Larry, que serve quase como um espelho da trajetória do protagonista — e pode-se até dizer que Danny e Sy, o novo futuro marido da mulher de Larry, servem como espécies de id e superego, respectivamente, para o ego do professor.

Trazendo, em seus minutos finais, uma conveniente contradição de ideias ao afirmar, em momentos distintos, que a religião pode ser uma tolice insalubre (vide a aflição de Danny em seu bar mitzvah) e que a justiça divina talvez paire realmente sobre nós ("talvez" porque o final, na verdade, é meio em aberto), Um Homem Sério é um pequeno grande filme, para todos os envolvidos e também para o público que lhe souber dar valor; uma produção que não se furta em propor discussões e questionar diversos valores da sociedade sem se preocupar muito em satisfazer as necessidades de compreensão do espectador. E, apenas por isso, é um filme que merece ser visto por qualquer pessoa que busque uma história instigante e provocadora de pensamento, ainda que nem tanto por aqueles que buscam apenas entretenimento fácil.


Classificação final:
Oscar: Indicado a Melhor Filme e Melhor Roteiro Original (Joel e Ethan Coen)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Resenha 10: "Valente", de Mark Andrews e Brenda Chapman

Merida (Kelly Macdonald), Lorde Macintosh (Craig Ferguson) e seu filho, Lorde Dingwall (Robbie Coltrane) e seu filho, Lorde MacGuffin (Kevin McKidd) e seu filho, Elinor (Emma Thompson) e Fergus (Billy Connolly) em Valente. © Disney.
Brave, EUA, 2012. Animação/Fantasia/Família/Aventura/Dramédia. 94 minutos. Direção: Mark Andrews e Brenda Chapman. Escrito por: Brenda Chapman, Mark Andrews, Steve Purcell e Irene Mecchi. Elenco: Kelly Macdonald, Emma Thompson, Billy Connolly, Julie Walters, Robbie Coltrane, Kevin McKidd, Craig Ferguson. Classificação indicativa: Livre.

Antes de mais nada, acho correto esclarecer, pelo bem da integridade jornalística (há há), que eu, assim como boa parte da população, sou fã incondicional da Pixar e de praticamente tudo o que eles fizeram até Carros 2 (que não é um filme ruim, mas tampouco é bom o suficiente). Acho difícil isso turvar o meu julgamento, mas já aviso para evitar posteriores desconfortos.

Na verdade, para grande parte dos críticos o fato de um filme ser da Pixar já o coloca em posição delicada, visto que espera-se dele automaticamente que faça jus ao nível absurdamente alto que foi estabelecido e mantido pelo estúdio ao longo dos anos. Carros 2 foi uma vítima dessas expectativas muito altas, e Valente tem sido. Inicialmente, ao assistir o filme nos cinemas e com a distraidora dublagem em português (que vitimou até mesmo as antes belas canções interpretadas por Julie Fowlis), eu me esforcei mais do que gostaria para apreciá-lo, por motivos que já explicarei. Com o tempo, porém, a sutileza do filme cresceu em mim, e, ao revê-lo em DVD nessa semana de lançamento, eu realmente tive uma experiência diferente, e em muito melhorada.

Pra começar, o trabalho vocal do elenco original é excelente; apesar de ter custado um pouquinho a me acostumar aos sotaques escoceses, eu não demorei pra me surpreender com a vivacidade que Kelly Macdonald — uma atriz desconhecida no Brasil, mas que tem algum reconhecimento nos EUA como um talento subvalorizado graças a atuações como as em Onde os Fracos Não Têm Vez e na série Boardwalk Empire — dá à protagonista Merida, o que não é pouco considerando que a escocesa teve o imenso desafio de ser a primeira "atriz principal" da história da Pixar. A experiente Emma Thompson é igualmente notável em sua performance impactante e matizada como a rainha Elinor, e o elenco de apoio, por assim dizer, é bem-sucedido na tarefa de dar alívio cômico ao filme — Billy Connolly, em particular, consegue transitar formidavelmente entre a caricatura ruidosa e o desespero que toma conta de seu personagem no terceiro ato.

E o filme, em si, cumpriu com minhas suspeitas e revelou-se muito mais profundo e emocional da segunda vez. Após uma abertura eficiente que nos apresenta aos personagens de forma dinâmica e convence ao retratar o sufoco de Merida em meio à sua rotina aristocrática imposta por Elinor — sequência esta que ainda serve como uma desconstrução curiosa do tipo "princesa Disney" que Merida repudia —, o filme não demora em nos apresentar ao seu conflito principal: o casamento arranjado que se enuncia sobre a pobre princesa ruiva, e que sua mãe insiste ser importante para a manutenção da paz do reino. Após uma sequência brilhante que ilustra com precisão a falta de comunicação entre mãe e filha e a dificuldade que as duas têm de enxergar o lado da outra (não darei detalhes para não estragar o impacto, já que o filme tem menos momentos geniais do que a maioria das produções da Pixar), os três lordes cujos filhos competirão pela mão da princesa chegam ao castelo, e, previsivelmente, é um pretendente pior que o outro.

Ao longo de todo esse primeiro ato, pipocam diálogos e cenas que ecoarão pelo resto do filme para pontuar a jornada pessoal de Merida e Elinor, em uma jogada esperta dos realizadores. Além disso, é admirável a forma como a aura de comemoração da chegada dos lordes é rapidamente quebrada e transmutada em tensão absoluta graças às ações/reações de Merida e Elinor, que mostram-se completamente orgânicas e até mesmo relacionáveis, tanto para filhas quanto para mães (e o efeito dramático da sequência é potencializado novamente pelas atuações de Macdonald e Thompson). Assim, a narrativa é logo atirada em um sufoco momentâneo que serve para dar origem à principal reviravolta da história — e isso tudo é feito enquanto a relação delicada entre as duas protagonistas vai sendo hábil e comoventemente desenhada.

A partir da metade do filme, o foco muda bastante, e começa uma prolongada seção narrativa que acompanha o desenvolvimento de Merida e Elinor enquanto elas aprendem a ouvir mais uma à outra — é tanto mais louvável que o roteiro consiga manter essa transição crível e envolvente mesmo com uma barreira enorme de comunicação colocada por ele entre as duas. Assim, sem demorar muito, Valente se torna algo que boa parte da crítica não pôde enxergar: um estudo psicologicamente astuto da relação entre mães e filhas (ou pais e filhos de modo geral), e ao mesmo tempo um incitador de discussões sobre a necessidade de equilibrar as tradições/convenções e a quebra destas. Isso tudo é feito de forma sutil e tocante, através de metáforas inteligentes como aquela em que a protagonista, que durante toda a produção se manteve adversa às tradições femininas, entrega-se à costura de uma tapeçaria por imaginar que isso salvará sua mãe, apenas para descobrir que esta talvez não seja a solução, e cenas emotivas como um flashback que mostra a devoção amorosa de Elinor a uma Merida de colo, o que, pelo que já sabemos do enredo, coloca ainda mais em jogo para a princesa. Por várias vezes, cenas que até então aparentavam ser oportunidades perdidas ou mesmo momentos descartáveis mudam de significado com o desenvolvimento da trama, comprovando a inteligência dos roteiristas. E a tensão é construída com cuidado ao longo dos dois últimos atos, levando a um clímax emocionante que coloca todos os personagens principais em situações de completo "terror adulto" (o que é ainda mais evidente nas reações do até então divertido e despreocupado pai de Merida), mostrando que a Pixar ainda sabe como mexer com os corações de mães e pais.

Normalmente, toda essa construção psicológica/filosófica cuidadosa (que se revela uma das mais sombrias e maduras da história da Pixar) e a forma competente como ela é conduzida pelos diretores, somadas ao costumeiro preciosismo do estúdio no que diz respeito aos visuais — os cenários espetaculares e o incrível cabelo de Merida seguramente tornam este filme um dos maiores feitos da história da computação gráfica no cinema —, seriam suficientes para garantir a essa 13ª produção do estúdio de Emeryville o status de clássico instantâneo facilmente alcançado por muitos de seus antecessores. Mas Valente perde uma estrela por ter persistentes e pronunciados problemas de ritmo — e isso não é culpa dos montadores, e sim da própria construção da história, que sofre por depender demais de um grupo de personagens reduzido que rapidamente se torna sufocante por sua repetitividade (não me refiro à inesquecível dupla de protagonistas, e sim a personagens coadjuvantes como os lordes e os irmãos de Merida). Além disso, o filme peca por apressar-se demais na resolução do conflito entre Merida e Elinor, e embora esta seja feita com exatidão psicológica absoluta, a sensação dada pela decisão de passar todo o segundo ato em apenas algumas horas não é tanto a de uma urgência incontornável, como queriam os realizadores, quanto a de uma excelente oportunidade perdida de ir mais a fundo na análise das relações mãe/filha — é só comparar este filme com Procurando Nemo, por exemplo, e fica claro que o âmbito de sua história é bem menos ambicioso e interessante. Ainda assim, Valente é uma produção importante — Merida é a primeira "princesa da Disney" a não ter ou depender de um príncipe, o que revela a preocupação da Pixar em dar às meninas um modelo de comportamento mais atual — e que funciona muito bem, na maior parte do tempo, como entretenimento tocante e inteligente, além de passar uma série de mensagens ótimas para filhas/filhos e mães/pais. E, se isso não é suficiente para igualá-lo às obras-primas que a Pixar já mostrou-se capaz de fazer, ainda é mais que o bastante para permiti-lo integrar a filmografia do estúdio sem passar vergonha.


Classificação final:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Eu acho que devo uma explicação (+ resenhas 5 a 9)

No acidentado princípio, este blog foi mais um ímpeto do que outra coisa. Considerava-o um exercício do meu senso crítico, que poderia ser colocado em prática se algum dia eu viesse a fazer filmes eu mesmo. Mas a vida atrapalhou a iniciativa e eu acabei entrando em um daqueles hiatos.

Hoje, felizmente, a vida parece ter dado um tempo, e como eu não tenho muita coisa melhor pra fazer, pretendo continuar a escrever resenhas para quaisquer filmes que eu assistir. Devido à grande lacuna entre a minha última resenha e o dia de hoje, os textos não mais se referirão a filmes que acabaram de ser lançados em DVD/BluRay ou no cinema, e sim a quaisquer lançamentos de quaisquer épocas (há uma infinidade de filmes dos últimos 14 anos me aguardando na prateleira, e eu pretendo ver pelo menos a maioria). Lançamentos, no geral, serão priorizados, mas não exclusivos.

Dito isso, me sinto na obrigação de redigir opiniões mais ou menos curtas sobre cinco dos seis filmes que eu assisti mais recentemente (o sexto ganhará um texto à parte). Eles são:

In the Loop, de Armando Ianucci (In the Loop, Inglaterra, 2009. Comédia.). Jamais conseguirei entender os critérios das distribuidoras daqui. Apesar de In the Loop ser, por cima, um filme difícil de entender para os brasileiros, é, no fundo, uma das produções inglesas mais universais lançadas nos últimos anos; na verdade, é acima de tudo um filme anti-guerra, sem dúvida um dos melhores já lançados sobre a Guerra do Iraque. E, apesar disso, não chegou sequer a ter um lançamento em DVD no Brasil. A história, que de tão crua e orgânica nem vale a pena ser resumida com muitos detalhes, é a de como uma série de erros e gafes públicas de secretários e generais dos governos dos EUA e da Inglaterra teriam levado ao início do conflito no Oriente Médio. Mas o espectro do filme vai em várias outras direções, chegando por vezes a assumir a dimensão de um atestado sofisticado do relacionamento entre o governo e o povo. Completamente verossímil tanto em seu roteiro (escrito por quatro pessoas a partir de um seriado cômico inglês da autoria do próprio diretor) quanto na abordagem de Ianucci, que consegue manter um ritmo incrivelmente vívido apesar do estilo "pseudo-documentário" que (corretamente) adota, In the Loop ainda tem o apoio de um grande elenco que contribui para torná-lo consistentemente hilário (Peter Capaldi rouba a cena por estar mais estourado, mas o trabalho difícil de atores como Tom Hollander é igualmente meritório e ambos mereciam indicações ao Oscar). É, por vezes, um filme assustador — e não porque escancara os horrores da guerra, mas porque nos dá uma ideia de quem são as autoridades por trás desses horrores.

Uma Vida Melhor, de Chris Weitz (A Better Life, EUA, 2011. Drama.). Lançado apenas em DVD no Brasil, este Uma Vida Melhor chamou alguma atenção no começo do ano pela indicação-surpresa do mexicano Demián Bichir ao Oscar de Melhor Ator (desbancando Leonardo DiCaprio em J. Edgar). Sexto trabalho diretorial de Chris Weitz, cujo currículo é um dos mais diversos que já vi, indo do primeiro American Pie a A Saga Crepúsculo: Lua Nova e passando por Um Grande Garoto e A Bússola de Ouro, esse relato da experiência de um imigrante ilegal e seu filho em Los Angeles é, certamente, um dos filmes mais maduros do cineasta — e, não obstante, uma produção esquecível. Pra falar do elefante na sala — a atuação de Bichir, obviamente —, não é difícil admitir que ele surpreende no papel, acabando por se revelar melhor do que o filme, que, apesar de resvalar em temas relevantes e fazer um retrato realista da vida dos imigrantes, não atinge a complexidade e as nuances que ressoam na performance contida de seu protagonista. A trama, para começar, sempre parece estar a serviço da proposta, o que diminui a força dos personagens e da própria mensagem do filme, além de tornar seu ritmo inconsistente. Os personagens secundários são apresentados de maneira confusa e desleixada, além de muitas vezes serem incapazes de ir além dos estereótipos (o melhor amigo do filho do principal é uma não-presença). E Weitz comete alguns tropeços inexplicáveis que expõem sua relativa inexperiência atrás das câmeras, como incluir um plano final completamente desnecessário dando um rápido vislumbre da vida de um personagem após seu destino. Apesar dessas falhas "técnicas", porém, o texto de Uma Vida Melhor consegue, na maior parte do tempo, ser humano e reverberante em sua exposição da realidade na qual seus personagens vivem — e assim o mérito das cenas mais instigantes (como aquela em que Luis pergunta ao pai "Por que todas essas pessoas pobres têm filhos?") vai quase todo para os roteiristas.

Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, EUA, 2011. Romance/Comédia/Fantasia.). É cada vez mais difícil encontrar filmes que proponham discussões ambiciosas sem recair em abordagens dramáticas ou até mesmo depressivas. A filmografia de Woody Allen tem a qualidade de entrar muitas vezes nessa categoria de filmes "leves, mas profundos", e Meia-Noite em Paris é um exemplo ótimo. Aproveitando a persona amigável do subestimado Owen Wilson como o Woody Allen da vez (no caso, Woody "Gil, o Roteirista" Allen), o filme consegue ser ao mesmo tempo um espelho crítico da sociedade e um tratado contra o cinismo. Allen está em grande forma atrás das câmeras, brincando com as expectativas do espectador sempre que pode e ressaltando através de sua direção arrojada tudo o que não é inteiramente expresso pelo excelente roteiro, pelo qual ele ganhou um Oscar (que não foi receber, em um ato costumeiro que sempre admirei nele). Além da ideia mais "clara" que o filme atesta — a de que viver no passado é besteira —, há ainda uma série de outras agulhadas dissolvidas na história aparentemente doce de um homem pacato e sonhador que tem a oportunidade insólita de visitar a Paris dos anos 20. O elenco ajuda — tanto Michael Sheen quanto Rachel McAdams estão admiravelmente detestáveis, e Corey Stoll rouba a cena em suas curtas aparições — assim como as belas locações e a fotografia aconchegante. E é maravilhoso ver um cineasta experiente como Allen em ação, amarrando as pontas da estrutura complexa do filme de forma absolutamente admirável no desfecho. Uma produção leve e adorável para qualquer idade — embora provavelmente chata para os muito novos —, Meia-Noite em Paris poderia ser visto pelos fãs mais cínicos do diretor como um trabalho trivial em comparação com obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Mas, como o próprio Allen ressalta aqui, nostalgia demais não vale a pena.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004. Romance/Drama/Sci-Fi.). Às vezes, eu me sinto sinceramente envergonhado de ter assistido a tão poucos filmes escritos por Charlie Kaufman. Além deste, que à época fora considerado seu magnum opus, tendo inclusive lhe rendido seu único Oscar, assisti apenas ao relativamente recente Sinédoque, Nova York. Se esses dois filmes valem alguma coisa, acho que dá pra falar que todo o hype em torno do roteirista Kaufman (também "autor" de Quero Ser John Malkovich e Adaptação) é absolutamente justo. Brilho Eterno... já é praticamente um clássico, então eu não tenho muito mais para falar a seu respeito do que o que já foi dito, mas o que eu posso falar é que qualquer um que não viu esse filme ainda (ou tentou ver e dormiu, o que aconteceu com muita gente) está fazendo a si mesmo um desserviço. Esse drama romântico maluco, pioneiro em retratar as alegrias e as decepções do amor moderno com franqueza (algo que muitos romances passariam a fazer também, um dos casos mais famosos sendo o do ótimo (500) Dias com Ela), é uma daquelas epítomes da linguagem cinematográfica que surgem de tempos em tempos para nos mostrar para que (e do que) o cinema é feito. Criando simbolismos e metáforas dignos de David Lynch e com a profundidade temática de um filme de Francis Coppola ao ambientar o filme quase todo na mente do protagonista, Kaufman e o também visionário diretor francês Michel Gondry (cuja mão inventiva sempre se faz sentir apesar do quanto o roteiro de Kaufman se impõe) fizeram uma obra-prima simultaneamente tocante e assombrosa, com uma complexidade estrutural que poucas vezes teve paralelos e um rigor psicológico impressionante na construção de seus personagens, subvertendo convenções a todo momento e jamais deixando algo ficar solto na narrativa sem que haja um propósito temático específico. Além disso tudo, é claro, todos os atores do filme registram aqui atuações que figuram entre as melhores de suas soberbas carreiras (Jim Carrey em particular). Na superfície, Brilho Eterno... é um filme sobre um relacionamento romântico. Mas, na soma de suas partes, é um filme sobre todos os relacionamentos românticos, e os fatores bons, ruins ou péssimos que os cercam.

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (Moonrise Kingdom, EUA, 2012. Dramédia/Romance.). Eu realmente gostaria de dar cinco estrelas a Moonrise Kingdom — mas não posso, porque embora seja praticamente desprovido de falhas, ainda é um filme que só faz sentido conceitual no contexto de sua produção: sem saber que se trata de um marco na evolução humana dos trabalhos do cultuado Wes Anderson, fica difícil levar esse filme a sério como algo mais do que uma ode à inocência e à eventual perda dela. Na verdade, o olhar de Anderson sobre as pessoas e seus erros, durante quase todo o filme, é apenas observacional, privando o conjunto da profundidade analítica de alguns de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, o delicioso senso estético de Anderson e o imenso respeito que este tem por seus personagens se fazem sentir a todo momento em Moonrise Kingdom, que consegue ser ainda mais caloroso, emocional e envolvente do que o excepcional O Fantástico Sr. Raposo (a segunda melhor produção animada no melhor ano da história recente da animação). Pra começar, a escolha dos dois jovens atores estreantes que encabeçam o elenco estrelado é perfeita. Jared Gilman e Kara Hawyard conseguem fazer frente às atuações memoráveis de veteranos como Bruce Willis e Frances McDormand, além de exibirem bem mais química do que a maioria dos casais de comédias românticas — assim tornando a cena da fuga dos dois entre o primeiro e o segundo ato um momento inesquecível por sua organicidade. O filme todo, na verdade, é recheado de bons momentos, inclusive uma série de analogias inteligentes, visuais e sonoras, que servem para definir os complexos personagens e suas motivações e inseguranças. Pontuando com precisão a também antológica sequência da tempestade, a trilha de Alexandre Desplat é ao mesmo tempo aconchegante e climática, e o mesmo pode ser dito do trabalho minucioso dos diretores de arte. No todo, porém, esse é um triunfo de Anderson, que consegue imprimir seu estilo ao filme ao mesmo tempo em que cria uma obra emocionante capaz de tocar a todos.

sábado, 24 de março de 2012

Resenha 4: "Os Muppets", de James Bobin

Jason Segel, Amy Adams, Kermit, Rowlf, Janice, Scooter, Animal, Miss Poogy, Sgto. Floyd Pepper, Gonzo, Cozinheiro Sueco, Sam a Águia, Lew Zealand, Urso Fozzie, Dr. Teeth, Dr. Bunsen e Walter em Os Muppets. © Disney.
The Muppets, EUA, 2011. Comédia/Família/Musical. 103 minutos. Direção: James Bobin. Escrito por: Jason Segel e Nicholas Stoller. Elenco: Jason Segel, Amy Adams, Peter Linz, Chris Cooper, Rashida Jones, Steve Whitmire, Eric Jacobson, Dave Goelz, Bill Barretta, Jack Black. Classificação indicativa: Livre.

Eu estava muito ansioso para que Os Muppets saísse em DVD, por vários motivos. Primeiro, a crítica amou o filme, que teve uma pontuação de 96% no agregador de críticas Rotten Tomatoes, tornando-o o segundo maior sucesso de crítica do circuito comercial em 2011. Segundo, eu nunca tinha tido contato com os Muppets antes (exceto pelo vídeo de Mahna Mahna no Youtube), e todo mundo ama os Muppets, e eu queria muito saber por quê. Terceiro, é um musical, e eu sou uma daquelas pessoas estranhas que gostam de musicais. Por isso tudo, eu fui atrás para assistir assim que o filme passou a constar como um item disponível nas lojas, e não me decepcionei. Trata-se, possivelmente, do melhor filme família do ano que passou.

O filme já abre em grande estilo: um divertido número musical na cidadezinha fictícia de Smalltown, na qual moram Gary (Jason Segel) e seu irmão, o homem-muppet Walter (voz de Peter Linz). Gary é superfã dos Muppets e está animado com uma viagem iminente para Los Angeles com o irmão e a cunhada Mary (Amy Adams), na qual pretende visitar o estúdio deles. Lá, uma decepção: o lugar está caindo aos pedaços, os Muppets não se encontram mais e conta-se nos dedos o número de visitantes. No lugar errado e na hora errada, Walter acaba testemunhando Statler e Waldorf (os dois velhinhos que falam mal de todo mundo) vendendo o teatro dos Muppets para o magnata do petróleo Tex Richman (Chris Cooper), que, uma vez sozinho com seus capangas Bobo o Urso e Tio Deadly (também Muppets!), revela que pretende derrubar tudo para extrair petróleo. Há uma brecha no contrato, claro: se os Muppets conseguirem 10 milhões de dólares antes do prazo de duas semanas se encerrar, o teatro é deles novamente. Desesperado, Walter insiste em ir atrás de Kermit, o Sapo (conhecido no Brasil como Caco) e eles acabam resolvendo reunir todos os Muppets novamente para fazer um teleton e tentar arrecadar os 10 milhões.

No processo, fica evidente que o filme possui muitas das características que tornaram os Muppets tão populares: com a ajuda do hilário mordomo de Kermit, o "Robô dos Anos 80", eles vão atrás de todos os Muppets, um por um, a começar pelo Urso Fozzie, que está trabalhando como vocalista em uma banda cover dos Muppets, os "Moopets". Todos os antigos membros do The Muppet Show viraram a página; no entanto, a nostalgia coletiva e o apreço que têm pelo antigo teatro (e pelo que ele significou na vida deles, conclui-se) faz com que, ao final de uma montagem lotada de referências ao passado dos personagens, todos estejam dentro do mesmo carro, indo para Paris ("por mapa", em uma das várias piadas difíceis de explicar que povoam o roteiro hilário) para tentar persuadir a fogosa Miss Piggy, agora editora plus-size da Vogue parisiense, a juntar-se a eles. Ela se recusa; está com a vida feita, prometeu a si mesma não olhar pra trás e ainda não perdoou o ex, Kermit, por alguma coisa que não fica clara (pelo que dá pra entender, ele pulou fora do noivado anos antes). Não seja por isso: entra, no lugar dela, Miss Poggy, sua versão "Moopet" masculinizada. Os Muppets seguem em frente com a ideia, e, após uma série de "nãos" das principais emissoras americanas — ninguém mais liga para os Muppets, diz a executiva interpretada por Rashida Jones —, acabam conseguindo um espaço na programação da ficcional CDE, graças ao cancelamento inesperado do popular programa Punch Teacher ou "Esmurre o Professor" (apenas uma das alfinetadas presentes no filme, desta vez à alienação dessa geração). Sob uma condição: deverá haver uma participação especial.

Com o conflito estabelecido, o filme passa a ser aquilo que deveria ser: só risos. Tudo aquilo que se espera de um bom filme dos Muppets está lá: as incontáveis e engraçadíssimas participações especiais — Emily Blunt, Mickey Rooney, Sarah Silverman, Zach Galifianakis, Alan Arkin, Kristen Schaal, Neil Patrick Harris, Whoopi Goldberg, Selena Gomez, Jim Parsons e Ken Jeong, só pra citar algumas —; as ótimas canções, de autoria de Bret McKenzie, co-protagonista e co-criador da série Flight of the Conchords; revitalizações de canções clássicas como Rainbow Connection e Mahna Mahna; auto-referências espirituosas (atores convidados mais jovens não sabem quem são os Muppets) e doses cavalares — e muito bem-vindas — de meta-humor (para quem não sabe, é quando um personagem diz, por exemplo, "Nossa! Essa explosão estava no orçamento do filme?"). Há até uma divertida aparição de Jack Black no papel dele mesmo, sequestrado e forçado a ser a "participação especial" do show. É interessante, também, notar o quanto o filme se esforça em ser offbeat; diferentemente de outros do gênero, aqui os personagens reconhecem que acabaram de participar de números musicais.

Risadas à parte, porém, o grande mérito de Os Muppets consiste em o filme não se deixar tornar-se entretenimento fácil, como é de praxe nas comédias e nos filmes família hoje em dia. Os personagens são tridimensionais, têm conflitos — conflitos superficiais, vá lá, mas quem esperava algo diferente de um filme dos Muppets? — e nos identificamos com eles, até certo ponto: Mary está triste por Gary ainda não a ter pedido em casamento após dez anos (!) de namoro; tanto Gary como Walter, em dado momento, têm crises de identidade e ficam sem saber se são homens ou muppets (a canção na qual esse conflito existencial é resolvido ganhou o Oscar, o único do filme e o único até hoje ganhado por um filme dos Muppets); os capangas do vilão Tex Richman são também Muppets e ficam na dúvida sobre trair seus iguais, e por aí vai. Em suma: é um bom filme, mesmo alheio às referências nostálgicas e bem-humoradas que deliciarão fãs de longa data. O elenco é afinado e as participações especiais o complementam soberbamente. O fluxo é ótimo, com risadas ininterruptas. Há uma boa mensagem (embora tenha sido tachada de comunista) para as crianças mais novas. Somando a isso tudo o fato de estarmos lidando com os MUPPETS, é impossível não gostar do filme. Parabéns ao ator/roteirista/fã Segel, que tomou a iniciativa de fazer um filme com os personagens de Jim Henson após eles passarem mais de uma década longe da tela grande. Graças a essa inciativa, pode-se agora afirmar com segurança: os Muppets estão de volta.


Classificação final:
Oscar: Melhor Canção Original, "Man or Muppet"

sexta-feira, 23 de março de 2012

Resenha 3: "50%", de Jonathan Levine

Joseph Gordon-Levitt e Anna Kendrick em 50%. © Summit Entertainment.
50/50, EUA, 2011. Dramédia. 100 minutos. Direção: Jonathan Levine. Escrito por: Will Reiser. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Anjelica Huston, Bryce Dallas Howard, Matt Frewer, Philip Baker Hall, Serge Houde. Classificação indicativa: 14 anos.

Muitos o consideraram o indie do ano, e, embora tenha sido ignorado no Oscar e no Brasil só tenha sido lançado em DVD, 50% tem as credenciais. Baseado na própria história de vida do roteirista estreante Will Reiser e produzido pelo co-protagonista Seth Rogen, amigo dele na vida real, o filme é, em termos estéticos, tipicamente indie, com a trilha composta basicamente por canções, a fotografia fria e delicada, e a paisagem urbana invernal de Seattle como pano de fundo, e chamou atenção de todo mundo por alternar entre drama e comédia ininterruptamente.

Pra começar, o começo é muito indie: Joseph Gordon-Levitt corre de blusão ao lado de um rio em Seattle, chega em casa, toma um banho, conversa com a namorada Bryce Dallas Howard e entra no carro do melhor amigo Seth Rogen para ir trabalhar. Trata-se, no caso, de Adam Lerner, um jornalista bom-moço que não fuma, não bebe e tampouco sabe dirigir. Qual não é a sua surpresa, então, quando o médico lhe informa que ele tem um tumor maligno na coluna, e que vai precisar fazer quimioterapia. As reações dos mais próximos são ora engraçadas, ora densas, como o resto do filme vai ser: Kyle, o melhor amigo, solta um monte de palavrões (é Seth Rogen, afinal, fazendo o papel quase dele mesmo), a mãe superprotetora (Anjelica Huston), que já tem que cuidar do marido com Alzheimer, enfia na cabeça que tem que passar a morar com o filho para poder cuidar dele, e a namorada recusa a oferta generosa dele de terminar a relação e afirma, relutante, que consegue lidar com aquilo. Adam vai atrás e ficamos sabendo o significado do título — as chances de ele sobreviver são de 50%.

Fatores, lógico, vão começando a se ajuntar e a dar um fundo psicológico para o filme, fatores que a princípio parecem alívios cômicos só que mais pra frente contribuirão na degradação psicológica do protagonista, que tenta a todo custo manter a compostura em meio ao inferno que é o tratamento contra o câncer. Entram em cena uma terapeuta (Anna Kendrick) novata, jovem e inexperiente que não parece saber direito o que está fazendo ao tentar ajudar Adam a manter a cabeça no lugar, o que o torna ainda mais cético, e dois idosos que também passam por tratamento quimioterápico (os ótimos Matt Frewer e Philip Baker Hall) e dão a ele lições sobre a vida, o amor etc. nos intervalos das sessões. Além disso, o amigo Kyle providencia alívio cômico, tentando ajudar Adam a manter-se otimista e aproveitar a vida e ao mesmo tempo aproveitando-se da doença dele para arrumar uma namorada.

Em certo ponto no filme, tudo parece bem — Adam tem dois novos amigos pra desabafar, a relação com sua terapeuta estreita-se cada vez mais até mesmo fora do consultório, e ele insiste pra todo mundo que está superbem apesar do câncer. No entanto, um evento infeliz envolvendo a namorada dele desencadeia uma série de curvas, e ficha de Adam começa, finalmente, a cair. Os fatores que até então o ajudavam a manter a cabeça fria alteram-se tão radicalmente e de uma hora para a outra que ele perde a cabeça. De repente, a forma como todos insistem que tudo vai acabar bem o irrita; ele está certo de que vai morrer.

É nesse momento, final e definitivamente, que o filme vai de uma comédia com tons dramáticos para um drama — com tons cômicos, tudo bem —, mas essa transição é realizada com tanta delicadeza que o espectador, a essa altura, está imerso demais na história para notar. Delicadeza, sem dúvida, é um dos maiores méritos do filme, justamente por se tratar de um tema tão pesado. As melhores cenas são as mais delicadas — como aquela em que, em face da insistência de Adam em dizer que está bem, a terapeuta não sabe como proceder —; a trilha musical, do badalado compositor Michael Giacchino, um dos mais requisitados da atualidade no cinema, não adquire as nuances grandiosas de trabalhos anteriores dele como Up - Altas Aventuras e Lost, mas é sutil, ofuscada por canções; a direção de Jonathan Levine mostra-se fluida e intimista, potencializando o trabalho dos atores — e o elenco, talvez, é o que há de melhor no filme, das performances sutis porém vigorosas de veteranos como Anjelica Huston à eficiência dos mais jovens Bryce Dallas Howard, Seth Rogen (sem dúvida na melhor atuação cinematográfica de sua carreira) e Anna Kendrick, indicada ao Oscar faz alguns anos por Amor Sem Escalas.

Mas o ponto alto, obviamente, é o protagonista Joseph Gordon-Levitt. Apesar de fazer um personagem parecido com o que representou no também indie (e também ótimo) (500) Dias com Ela, ele se entrega tanto ao papel que torna profundamente interessante e identificável um personagem que, se interpretado por outro ator (como James McAvoy, que fora inicialmente escalado para fazer Adam mas declinou), poderia ficar meio sem-graça, dado seu bom-mocismo. Esse tem tudo pra ser o ano de Levitt, que, além de co-estrelar a ficção científica Looper com Bruce Willis, estará no drama biográfico Lincoln, dirigido por Steven Spielberg, na pele do filho do lendário presidente americano. Portanto, preste atenção nele. Se o seu histórico até aqui — além de 50% e (500) Dias com Ela, ele protagonizou os também aclamados O Vigia e A Origem — servir como referência, outros grandes papéis estão por vir para ele. E preste atenção também no roteirista Will Reiser, que aqui estreou da melhor forma possível: com uma dramédia humana, tocante e muitas vezes hilária que atesta sua habilidade notável em lidar com personagens.


Classificação final: